ReproduçãoOrson Welles: estruturou ‘‘Soberba’’ como uma tragédia clássica

Em 1942, Orson Welles veio ao Brasil para realizar as filmagens, no quadro da política de boa vizinhança do presidente Franklin D. Roosevelt, de ‘‘Tudo É Verdade’’. O filme - mais conhecido pelo título original ‘‘It’s All True’ - ficou inacabado e virou a obra mítica que se sabe. Ao embarcar para a América do Sul, Welles trabalhava na montagem de ‘‘Soberba’’, seu segundo filme. A empresa RKO aproveitou sua ausência para encomendar a Robert Wise a remontagem do material. Foi a primeira de uma série de batalhas que Welles perdeu em Hollywood. Elas acabaram por desfigurar sua carreira e criar a fama de um gênio truncado.
‘‘Soberba’’ é um lançamento da Continental nas locadoras. Chama-se ‘‘The Magnificent Ambersons’’ no original e se passa numa cidade do interior dos Estados Unidos, no começo do século. Tim Holt é o jovem George Amberson, que se opõe ao casamento de sua mãe (Dolores Costello) com um antigo admirador, Eugene Morgan (Joseph Cotten). Morgan é fabricante de automóveis e tem uma filha (Anne Baxter). A atitude de George, ditada por seu orgulho, o afastará da bela Anne, levará a mãe à morte, a família à ruína e um de seus integrantes à loucura.
RevolucionárioSobre essa base melodramática, adaptada de um romance de Booth Tarkington, Welles realizou o único de seus filmes em que também não é ator. Na época, ele havia cristalizado a reputação de ‘‘enfant terrible’’, revolucionando a técnica de narrar com ‘‘Cidadão Kane’’ (1941), que muitos críticos e historiadores consideram, até hoje, o melhor filme de todos os tempos.
François Truffaut dizia que Welles fez ‘‘Soberba’’ contra ‘‘Cidadão Kane’’, privilegiando o plano-sequência mais que a profundidade de campo. ‘‘Cidadão Kane’’ adquire sentido a partir da justaposição dos flash-backs. Soberba é linear. Estruturado como uma tragédia clássica, com o coro de cidadãos que comenta a ação, o filme atribui o papel de protagonista ao cenário: é nele que se lêem os signos da decadência dos Ambersons. O próprio Welles é o narrador e o filme desenvolve sua peculiar visão que divide o mundo em manipuladores e manipulados.
Se o filme é menos barroco que outros de Welles, não é porque o cineasta tenha desistido da grandiloquência, mas porque submeteu seu barroquismo às exigências do tema. A sequência inicial, quando o diretor resume a história dos personagens, é um modelo de concisão e modernidade narrativa. Não impressionam menos o baile, o encontro da tia com o sobrinho e o último encontro de George com a filha do fabricante de automóveis. Por meio dessas cenas, Welles permanece fiel à sua concepção de mundo, mostrando a oposição entre a aristocracia e o democratismo, imposto pelo progresso, que destrói o que a primeira tem de melhor. Já era o tema, um dos tantos possíveis, de ‘‘Cidadão Kane’’.
O que se discute ainda hoje é até que ponto ‘‘Soberba’’ se trata de um filme wellesiano. Alguns críticos acham que é um corpo estranho na filmografia do autor. Não é. O fato de a RKO ter remontado o filme, cortando cenas que Welles considerava fundamentais, não despersonaliza a obra nem a priva de sua condição de clássico. ‘‘Soberba’’ se ajusta ao formato do vídeo, que cumpre aqui uma função didática, ajudando a resgatar a importância da obra. É possível, para o espectador, (re)ver as cenas, analisando como Welles dirigia seus atores e até, com o recurso do quadro-a-quadro, verificar como construía as sequências.

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