A primeira reação é de desprezo. Afinal não há nada mais desgastado do que tributos a Tom Jobim. Mas em ''Jobiniando'', seu novo álbum, o cantor e compositor Ivan Lins pretendeu menos prestar ''mais uma'' homenagem ao maestro do que propriamente ser inspirado por ele.
É o 26º disco de sua carreira, o terceiro pela gravadora Abril Music. No mês que vem, será lançado no mercado internacional. O repertório reúne dez músicas de Tom Jobim (1927-1994), entre elas ''Inútil Paisagem'', ''Dindi'', ''Samba do Avião'', ''Bonita'' e ''Eu Sei que Vou te Amar''. Inclui a premiada ''Soberana Rosa'', vencedora do Grammy desse ano como melhor canção na voz do cantor inglês Sting.
E traz parcerias inéditas com Abel Silva (''Acaso''), Celso Viáfora (''Rio de Maio'') e Martinho da Vila (faixa-título). O material se completa com a regravação do standard americano ''Time After Time'', de Jule Styne e Sammy Cahn e que ficou famosa na voz de Frank Sinatra. A produção é de Roberto Menescal.
No texto de apresentação, o cronista Luis Fernando Veríssimo aplaude o registro: ''Como se homenageia um melodista? Com melodias, claro. Esta era uma tarefa para Ivan Lins. Um dos maiores melodistas do Brasil celebra o maior melodista do Brasil não com reverência - que o Tom não gostaria - mas com a forma mais admirável de admiração, que é a recriação''.
Até a semana passada, Ivan Lins estava nos Estados Unidos onde fora para sua excursão anual. Ficou 20 dias, a tempo de concluir a agenda de apresentações antes da terça-feira do terror. Agora começa a ensaiar para a temporada de shows do CD, que será inaugurada na próxima semana no Teatro Rival, do Rio de Janeiro. Em entrevista à Folha2, ele fala da carreira internacional, de sua geração e dos festivais de música popular.
Você retornou semana passada de uma turnê pelos Estados Unidos. Como foram os shows?
Foram ótimos. Felizmente a excursão terminou antes da tragédia, embora eu tenha tido problemas para voltar ao Brasil ficando retido três dias no aeroporto de Boston por causa dos acontecimentos.
Como está sua carreira internacional?
Há uma década, tenho feito excursões anuais aos Estados Unidos e ao Japão. Na Europa, vou de quatro em quatro anos. E nesta temporada, a Velas vai começar a lançar meus discos de catálogo no exterior, o que não acontecia desde 1992 quando saí de uma gravadora multinacional para criar o selo. É um projeto que prevê a distribuição de seis CDs nos próximos três anos.
A que você atribui o interesse dos norte-americanos pela música popular brasileira num fenômeno de valorização que foi intensificado nos últimos dois anos?
À sua qualidade, que se solidificou através da Bossa Nova, uma variação carioca do samba que teve em Tom Jobim seu pai. Antes havia Ary Barroso e um e outro, mas era um interesse esporádico. Eu apareci depois da Bossa e só fui ganhar projeção internacional no final dos anos 80. Mas minha geração, a dos anos 70, também conseguiu se firmar através da qualidade. Talvez seja a última geração que tenha revelado artistas de qualidade com apelo popular. Depois da década de 80, não apareceu ninguém. Se alguém citar o Lenine, eu digo que o conheci em 1972. Digo o mesmo sobre o Guinga, que é fabuloso, embora não seja popular e tenha prestígio apenas entre a elite cultural. No meu tempo, as rádios tocavam 80% de música brasileira, hoje não passa dos 10%. Quem se interessa pela boa música, vai ouvir Caetano, Gil, Chico, Djavan, Joyce, Rosa Passos.
Você surgiu em meio à efervescência dos festivais universitários da canção. Ainda há espaço para esse tipo de evento?
Acho que é possível retomar os festivais, mas não no formato que a Globo tentou restaurar. O mundo mudou. Hoje em dia, dificilmente uma pessoa consegue ouvir tantas músicas inéditas num mesmo dia na televisão. Se uma já é difícil, imagine 12. Um festival que funcione precisa tornar as músicas concorrentes conhecidas e só depois levá-las para a TV. Precisa trabalhar as músicas, executá-las, torná-las conhecidas do público.
O ''Jobiniando'' traz dez músicas do Tom Jobim, além da menção direta no próprio título. No entanto, você tem declarado em entrevistas que o disco não é um tributo. Explique isso.
A idéia era tocar canções dele como se fossem minhas. O Tom foi uma fonte de inspiração e não um objeto de homenagem. O disco, na verdade, transcende o Tom e passa ser um tributo à minha cidade e a dele, o Rio de Janeiro. O som é totalmente carioca, é a cara do Rio. Comecei tocando Bossa Nova ao piano. Agora estou fechando um ciclo e retornando à minha cidade. Gostei tanto da experiência que planejo gravar um ''Jobiniando 2'', porque sobraram muitas jobinianas.
O crítico Luis Antonio Giron escreveu que este é o melhor álbum de sua carreira. Como você recebe esse tipo de avaliação?
É impossível dizer o que é melhor ou pior. O conceito harmônico e melódico do 'Jobiniando' não foge muito dos meus trabalhos anteriores. O próprio disco que fiz com músicas do Noel Rosa trazia uma leitura pessoal do repertório dele. O que sempre busco é a preservação da qualidade da música brasileira. Não tenho pretensão de vender milhões ou gravar discos para ganhar Grammys.

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