Sob os vestidos da realidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 26 de outubro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoJean Baudrillard: análise minuciosa e corrosiva dos acontecimentos mundiaisA filosofia como reflexão da realidade não possui utilidade prática direta. Ela não troca o pneu furado do carro, não lava meias sujas, não leva as crianças para a escola, não arruma um novo emprego, não paga o aluguel atrasado, não evita atropelamentos e outras coisas. O que ela pode oferecer é uma maior compreensão do mundo em que vivemos, revelar os reais traços ocultos pelos vestidos da realidade. Bons argumentos para isto estão nas idéias de pensadores franceses como Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Michel Foucaut e Michel Maffesoli em alguns livros recém lançados.
Tela Total - Mito-ironias da Era do Virtual e da Imagem de Jean Baudrillard, lançado pela Editora Sulina, reúne uma seleção e artigos escritos pelo pensador para o jornal francês Libération entre 1993 e 1997. Curiosamente o livro está sendo publicado no Brasil antes de ser editado na França. Os temas escolhidos por Baudrillard são os mais variados, temas veiculados cotidianamente pela mídia, de guerras à clonagem.
Baudrillard bate pesado. Sua leitura dos acontecimentos mundiais é minuciosa, reveladora e corrosiva. Com contundência retira a roupa e as máscaras que cobrem a realidade contemporânea. Em sua visão, a informação dos dias atuais, principalmente aquela veiculada pelas veículos de comunicação de massa, é comparável aos dados meteorológicos: Há muito tempo que a informação ultrapassou a barreira da verdade para evoluir no hiperespaço do nem verdadeiro nem falso, pois aí tudo repousa sobre a credibilidade instantânea - é fundamentalmente incerta. As consequências são lógicas: Lançada a informação, enquanto ela não for desmentida, será verossímil. E, salvo acidente favorável, nunca sofrerá desmentido em tempo real; restará, portanto, credível. Mesmo desmentida, não será nunca mais falsa, porque foi credível.
Em 1970 Michel Foucault foi eleito para ocupar a cadeira de História dos Sistemas de Pensamento nos cursos do respeitado College de France, ministrando aulas até sua morte, ocorrida em 1984. O resumo de seus cursos, escrito pelo próprio historiador, estão do livro Resumo dos Cursos do College de France publicado pela Editora Jorge Zahar. Os textos oferecem a trajetória do pensamento de Foulcault ao longo dos anos 70, quando desenvolveu importantes obras como Vigiar e Punir, A Vontade de Saber e História da Sexualidade.
ParalelosCrítica e Clínica reúne 17 textos escritos por Gilles Deleuze focalizando a literatura. Falando de obras de Lewis Caroll, Samuel Beckett, D. H. Lawrence, Alfred Jarry, Walt Whitman, Herman Melville, Frederic Nietzsche e outros, o filósofo traça paralelos, comparações e conspirações personalizadas seguindo por caminhos pouco trilhados. Trata-se de seu último livro, concluído antes de sua morte ocorrida em 1995.
Segundo Deleuze todos os textos que compõem a obra, giram em torno de um problema central, o problema de escrever: O escritor, como diz Proust, inventa na língua uma nova língua, uma língua de algum modo estrangeira. Ele traz à luz novas potências gramaticais ou sintáticas. Arrasta a língua para fora de seus sulcos costumeiros, leva-a a delirar. Exatamente o que o poeta pantaneiro Manoel de Barros revela quando afirma que em poesia o verbo precisa pegar delírio.
No livro Deleuze - O Clamor do Ser, lançado pela Editora Jorge Zahar, o pesquisador Alain Badiou procura descrever as várias facetas do pensamento de Gilles Deleuze. Badiou foi companheiro de estudos de Deleuze até o dia em que travam batalha no minado campo das idéias. Voltaram a conversar depois de muitos anos e quando estavam se entendendo, Deleuze morreu. Nas palavras de Alain Badiou, o livro, além de ser um ensaio, é uma grande e derradeira carta póstuma: Para mim não se tratará de relatar, de descrever o que Deleuze pensou. Mas antes, de terminar o interminável: uma amizade conflituosa que, em certo sentido, nunca aconteceu.
Considerado um autêntico sociólogo do cotidiano, Michel Maffesoli em A Transfiguração do Político - A Tribalização do Mundo, lançado pela Editora Sulina, realiza um desenho das estratégias milenares das estruturas de poder para limitar a expansão dos sentidos. Nas palavras do professor Juremir Machado da Silva, nesta obra Maffesoli mostra como a Razão na modernidade foi transformada em instrumento de controle, expulsando e condenando todas as manifestações não-racionais, afetivas, da ordem do inútil, a cultura do sentimentos - mostra que o homem, ser simbólico, não pode ser reduzido à lógica, nem ter amputada sua dimensão transcendental, mágica, poética, sonhadora.


