Por onde passa, Rodrigo Santoro atrai olhares. Mas ele parece não se importar com isso. Um dos nomes mais requisitados por produções da Globo, o ator é objetivo e prático quando se trata de sua carreira. Tanto que, gradativamente, conseguiu conquistar um espaço em Hollywood, nos Estados Unidos. E agora, no Brasil, só trabalha naquilo que realmente quer.
Há anos, o diretor Luiz Fernando Carvalho o sondava para algum projeto. Era difícil, no entanto, encontrar uma brecha na agenda de Santoro. Desta vez, o ator estava de folga das gravações da série americana "Westworld" exatamente no período em que os trabalhos da novela das 21 horas se iniciariam. "Era um desejo antigo fazer algo um pouco mais substancial no Brasil. E veio na hora certa para as coisas se alinharem. Me emocionei com a história e a ideia de estar em uma novela me agradou bastante", ressalta.

A primeira fase de "Velho Chico" é bastante focada na trajetória de Afrânio. O que mais chamou sua atenção em relação ao personagem?
Eu participo dos 24 primeiros capítulos e o personagem se transforma a cada dia. Ele vai amadurecendo, se transformando, começa de um jeito e termina de outro completamente diferente. Não é necessariamente um bom exemplo, não recomendo para as crianças que estão assistindo em casa (risos). Ele representa algo muito importante na história do nosso país. Falamos de coronelismo. As origens do coronelismo vêm da tradição patriarcal brasileira e a gente toca em uma série de questões além do Rio São Francisco e da história de amor. Temos também uma crítica social sendo feita. O meu personagem também – não só – representa isso.

Você ficou um mês e meio no Nordeste gravando cenas de "Velho Chico" com parte do elenco. Como foi a experiência?
Tive um encontro absolutamente fabuloso com o Nordeste. Eu conhecia as praias, como turista, e tinha uma imagem. Nós trabalhamos em vários estados: Rio Grande do Norte, Bahia, Alagoas, Sergipe... Estivemos em várias locações no Sertão Nordestino e eu vi coisas que me comoveram muito, tive a oportunidade muito especial de conhecer as entrelinhas do Sertão. É muito valioso você poder trabalhar em locação. Não consigo nem mensurar o valor que isso tem. Porque você está ali, com as texturas, e interage com o que é real, o que é vivo. Mas eu destacaria outro ponto.

Qual?
As pessoas, o lado humano que eu encontrei e me tocou demais. É até difícil explicar porque foram muitas emoções e histórias. Tudo tem sido muito intenso nesse trabalho. Quando eu tinha um pouquinho de tempo nessa viagem, procurava me relacionar com as pessoas. Porque aí você começa a se aproximar mesmo do que é a vida delas, de como se relacionam com outras pessoas e com a natureza. E me deixou muito tocado essa força que os nordestinos têm, que é quase um estereótipo deles. E quis entender de onde vem essa força e alegria inverossímil de quem vive, muitas vezes, em situação de miséria, com muitas dificuldades.

Alguma situação em especial chamou sua atenção durante a viagem?
Tivemos uma gravação em locação em que chegou um caminhão-pipa porque não tinha água na região. No final do dia, depois de uma gravação longa, tomei um banho no caminhão-pipa com as crianças, uma situação que nunca vou esquecer. Uma imagem linda e, ao mesmo tempo, dolorosa a alegria daquelas crianças em verem a água. Quando a gente chegou, a segurança tomou conta por causa do assédio, mas eles não estavam nem aí para a gente. A grande estrela dali era o caminhão-pipa, era a água, aquela abundância. As pessoas não têm relógio, elas olham a hora pela posição do sol. Essas coisas acabam nos colocando onde nós deveríamos estar. As pessoas não estão preocupadas com a roupa que você está vestindo, com o que você falou ou com quem você está namorando. Elas querem conhecer você, olhar nos seus olhos, saber do que você gosta.

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