Sob o signo da transgressão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de maio de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
A angústia e os caos podem ser bons parceiros da transgressão, estimulando diferentes posturas e linguagens diante da mesmice. A madrugada pode ser ótimo cenário para os jovens colocarem em ação as atitudes transgressoras, perambulando pelas ruas de porre, escalando muros, rolando no chão, esperando o amanhecer como quem espera que a vida, afinal, ganhe algum sentido. Sobre essa temática que pontua os sentimentos, a inquietação e os anseios da juventude, o grupo belga Les Ballets C. de la B. constrói um espetáculo que impressionou o público do Filo no fim de semana: ''Just Another Landscape for Some Jukebox Money'' (Apenas uma outra paisagem para uma jukebox).
Dança e teatro se misturam numa linguagem cênica que identifica e extrapola os cânones da arte ocidental como o balé clássico, a ópera, o musical norte-americano. Nem a bossa nova escapa na colagem que projeta o espetáculo num espaço claro de contemporaneidade. A monotonia dos primeiros quinze minutos antecede a certeza de que algo explosivo está para acontecer. E acontece, o tempo todo, sob a alternância do tédio e da diversão, da tensão e do relaxamento. Momentos imprevisíveis de humor costuram essas medidas extremas, fazendo o público rir do caos bem pontuado que esse estabelece em cena. Para construir espetáculo tão afinado o grupo se apropria de movimentos retirados de um repertório que vai do balé clássico à dança de rua. Tudo muito variado, solto, instigante.
As músicas saindo de uma jukebox são o mote perfeito para o bando que se reúne na rua ou nos bares extravasando o que parece contido nos limites do território urbano, nos paredões que fazem do cenário uma armadilha, a ratoeira onde se diverte e se angustia a fração contestadora da sociedade. O público identifica com facilidade cenas comuns nas cidades: a farra noturna, a bebedeira, a loucura, o embalo, as brincadeiras inconsequentes e, sempre, a falta de perspectiva diante do novo dia que amanhece. Tudo isso é protagonizado por atores-bailarinos cuja performance não fica aquém da perfeição. Sincronicidade, agilidade, expressividade máxima e movimentos que chegam a atordoar o espectador pela complexidade e precisão dão ao espetáculo a condição de peça-chave no festival deste ano. E o público acolhe bem mais esta investida de criatividade que ultrapassa barreiras culturais sintonizando qualquer platéia, de qualquer país.
As músicas escolhidas pelos próprios bailarinos, segundo o diretor Koen Augustijnen, reúne gêneros tão diversos quanto a ópera e os ritmos caribenhos, o que identifica signos da cultura ocidental sobre os quais bailarinos colocam grande dose de humor, debochando com propriedade da arte bem comportada como fazem os jovens transgressores quando debocham dos costumes que proíbem quase tudo aos menores de 18 anos.
Serviço: O Les Ballets C. de la B. apresenta ''Just Another Landscape for Some Jukebox Money'' no Guairinha, em Curitiba, nos dias 21 e 22, e em São Paulo, no Sesc da Vila Mariana, dias 27 e 29.


