Sob o signo da sobrevivência
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Sem pompa, discreto e recatado, começa amanhã, na serra gaúcha, o 27º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro. Não foi um ano fácil para a comissão organizadora. Aliás, foi particularmente difícil. Se já havia, ao final da última edição, o propósito de formatar a mostra dentro de parâmetros mais rígidos, esta decisão ganhou maior força a partir das desavenças entre real e dólar. O diretor do Festival, Esdras Rubin, não tem qualquer dúvida: Realizar o vigésimo sétimo foi um ato de pura sobrevivência, disse ele por telefone.
Para Rubin, além das dificuldades habituais, contabilizadas em circunstâncias normais, não podemos esquecer dos muitos problemas conjunturais, das anunciadas e necessárias mudanças na legislação do audiovisual e da malfadada desvalorização da moeda, que provocou cortes nos recursos de até 50% do orçamento inicialmente previsto. Por isso, ainda segundo ele, foi necessária uma adequação em busca de maior austeridade. Quem vier este ano ao Festival de Gramado não vai encontrar nenhuma festa. Mesmo assim, foi possível montar uma programação com uma expressiva seleção de concorrentes. De resto, Gramado volta a ter os mesmos seis dias de duração, como era antes, afirma.
Menos filmes, menos dias de programação, talvez mais tempo útil para pensar o cinema, o brasileiro de preferência. Ainda assim uma maratona, quem sabe menos exaustiva que em anos recentes, mas sempre uma prova de resistência. Ao todo são 40 filmes, entre curtas e longas 35 mm em competição, curtas e médias 16 mm também em competição, mais os hors-concours e a paralela Premieres Gramado 99.
Hoje às 19h30, Gramado-99 abre sua programação, no Palácio dos Festivais - Cine Embaixador, com uma sessão carregada e exclusivamente competitiva. Primeiro os curtas A Lua, de Josias Pereira, Amassa que Elas Gostam, de Fernando Coster, e o no mínimo curioso Do Dia Em que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro da Tia Ciata Mudando o Rumo da Nossa História, de Sergio Zeigler e Vitor Angelo. Seguem os longas Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos, brasileiro de Marcelo Mazagão, e o argentino Diário Para Un Cuento, de Jana Bokova, baseado em texto de Julio Cortázar. O invencível Super 8 também tem sua mostra competitiva paralela garantida, com 35 títulos.
É evidente que, festas suspensas, Gramado não ficaria sem o habitual trânsito de nomes conhecidos do grande público. E aqui também a organização buscou racionalizar: todos os convidados estão ligados aos filmes que serão exibidos durante a mostra. Foram evitados assim as dezenas de supérfluos. Já confirmaram presença: os brasileiros Carlos Alberto Ricceli, Bruna Lombardi, Ivan Lins (trilha sonora), Denise Fraga, Ester Góes, Luís Mello, Paulo Betti, Malu Mader, Othon Bastos, Antonio Pitanga, Vera Zimermann, Danielle Winits e Ângela Correa. E os latinos Diogo Infante, German Palácios, Maria Laura Garcia, Corália Veloz, Ana Maria Perez e Isabel Santos.
O Festival de Gramado também programou algumas homenagens. O casal de produtores Lucy e Luis Carlos Barreto recebe, na quinta-feira, o Troféu Oscarito - neste ano em sua décima edição. Outro homenageado especial é o diretor argentino Fernando Solanas: seu último filme, La Nube, menção especial em Veneza-98, está na mostra não competitiva Premieres Gramado. Serão lembrados ainda no decorrer da semana, o diretor Denoy de Oliveira, morto ano passado, os 50 anos da Cinedistri e o dramaturgo Dias Gomes, com a exibição de O Pagador de Promessas. Como atividades oficiais paralelas estão previstas duas oficinas, de direção de produção, com Giselle Hilt (O Quatrilho), e de roteiro cinematográfico, como Paulo Halm (A Guerra de Canudos, Quem Matou Pixote e Pequeno Dicionário Amoroso).
Três júris - dois oficiais e um formado pelo público de todas as noites - vão atribuir os Kikitos aos melhores deste ano. Para julgar os longas em 35 mm foram convidados Manuel Antin, cineasta argentino e reitor da Universidad del Cine de Buenos Aires; Helvecio Ratton, cineasta brasileiro; Eduardo Bueno, escritor e jornalista; Eliane Caffé, cineasta, e Francisco Lopes Villarejo, presidente do Festival de Huelva, Espanha.
Para escolher os melhores curtas foram chamados Carlos Gregório, ator; Flávio Chamis, maestro e diretor musical; A.S. Cecílio Neto, cineasta; Moema Muller, produtora e assistente de direção, e Irene Ferraz, diretora da Escola Técnica de Cinema do Rio de Janeiro.
Longas em competição
- Los Amantes Del Circulo Polar, Espanha. Dir. Julio Meden
-À Sombra dos Abutres, Portugal. Dir. Leonel Vieira
-Amaneció de Golpe, Venezuela. Dir. Carlos Azpúrua
-La Vida es Silbar, Cuba. Dir. Fernando Perez
-El Dia que Murió el Silencio, Bolívia. Dir. Paolo Agazzi
-Diario Para un Cuento, Argentina. Dir. Jana Bokova
- Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos, Brasil. Dir. Marcelo Masagão
-Por Trás do Pano, Brasil. Dir. Luiz Villaça
- Santo Forte, Brasil. Dir. Eduardo Coutinho
Curtas em competição
- Amassa que Elas Gostam, de Fernando Coster (SP)
- Ano Novo, de Marcos Katudjian (SP)
- Cidade Fantasma, de Lisandro Santos (RS)
- Copacabana, de Flavio Frederico (SP)
- De Janela Para o Cinema, de Quiá Rodrigues (RJ)
- Deus é Pai, de Allan Sieber (RS)
- Do Dia em que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro da Tia Ciata Mudando o Rumo da Nossa História, de Sergio Ziegler e Vitor Angelo(SP)
- E no Meio Passa um Trem, de Fernando Meirelles e Nando Olival (SP)
- Ela Perdoa, de Rachel Monteiro (SP)
- A Lua, de Josias Pereira (RJ)
- O Oitavo Selo, de Tomás Creus (RS)
O Pedido, de Adelina Pontual (PE)
- A Pessoa é Para o que Nasce, de Roberto Berliner (RJ)
- Uma História de Futebol, de Paulo Machline (SP)
Premieres Gramado 99
- La Nube , de Fernando Solanas (Argentina)
- Tango - No Me Dejes Nunca, de Carlos Saura (Espanha)
- A Vida Sonhada dos Anjos, de Erick Zonca (França)
-Dois Córregos, de Carlos Reichenbach (Brasil)
- The Hi-Lo Country, de Stephen Frears (EUA)
Hors-Concours (noite de encerramento)
- Mauá - O Imperador e o Rei, de Sergio Rezende (Brasil)Encolhido em seu formato e menos glamouroso, o mais importante festival brasileiro de cinema reflete a crise do País
ReproduçãoTango - No Me Dejes Nunca, do espanhol Carlos Saura, é um dos filmes que serão exibidos na mostra não competitiva intitulada Premieres GramadoArquivo FolhaOs brasileiros Luis Carlos Barreto e Dias Gomes serão homenageados na edição 99 do Festival de Gramado





