Sob o signo da resistência
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de maio de 2002
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Mesmo com algumas dificuldades estruturais e financeiras, o Festival de Cinema de Curitiba chega à sua sexta edição. Ao todo serão exibidos 190 filmes
Curitiba É um paradoxo. Enquanto a produção do cinema nacional aumenta em número e qualidade, as possibilidades de exibição do que se produz em território brasileiro são cada vez menores. Para suprir essa demanda, restam o festivais. São cerca de 50 em todo o Brasil, ainda que alguns isolados não tenham a projeção que mereçam. É o caso de Curitiba. Tímido e como quase todos os eventos da área com problemas estruturais e financeiros, o Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba chega a sua 6º edição na próxima quinta-feira. E o seu mérito é justamente esse: chegar até aqui mantendo a qualidade na seleção dos trabalhos e apresentando o que não temos a oportunidade de ver nas salas convencionais.
Com um orçamento minguado R$ 900 mil perto dos grandes eventos nacionais, o festival traz esse ano 190 filmes, que serão exibidos entre os dias 9 e 14, além dos projetos paralelos que incluem oficinas, lançamento de livros, exposições e debates. Na edição deste ano, o evento discute o tema Cinema: uma indústria atrás de sua crítica e de seu espaço na mídia.
Assim como nas edições anteriores, divide as exibições em mostras específicas. Na Mostra Oficial de Longas-metragens, destaque para os filmes Lavoura Arcaica, de Luis Fernando Carvalho com a curitibana Simone Spoladore no elenco e O Invasor, de Beto Brant. Ambos já bastante premiados em festivais anteriores e também exaustivamente esperados pelo público paranaense. O último, aliás foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Recife, que encerrou na última semana de abril.
Para se ter uma idéia, o Festival de Recife que encerra sempre cerca de duas semanas antes da abertura do festival de Curitiba, já apontando os favoritos para a versão paranaense tem um orçamento de R$ 2 milhões. Para conseguir atravessar as intempéries com menos da metade da verba do seu semelhante nordestino, o Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba, trabalha com parcerias. Mas não temos apoio suficiente. Falta as pessoas acreditarem no evento, reclama a idealizadora e diretora geral do festival, Cloris de Souza Ferreira.
Escaldada com contratempos que decepcionaram alguns participantes nos festivais anteriores, como o atraso no pagamento dos prêmios em 1998, Cloris ressalta o que compensa nesses seis anos consecutivos do festival e a sua motivação para continuar à frente do evento. A formação do público que participa das oficinas e a dedicação dos professores é impressionante, diz. Ela aponta as oficinas como a marca registrada do evento curitibano e se emociona ao ressaltar as dificuldades que vem atravessanto para dar continuidade ao festival, garantindo a qualidade do evento.
Para evitar aborrecimentos, esse ano os prêmios foram garantidos com antecedência. Na Mostra Competitiva de Curtas Metragens, 106 obras disputam em suas categorias o Melhor Filme, Melhor Vídeo e Melhor Cinema Digital (DCine). Os prêmios serão um automóvel e duas câmeras digitais, respectivamente. Para os vencedores (Melhor Filme e Melhor Vídeo) do Festival dos Festivais, categoria em que concorrem apenas as produções já premiadas em outros fetivais, serão oferecidas viagens internacionais.
O diretor cearense Joe Pimentel, que abocanhou o prêmio de melhor curta de ficção em 35 mm no Festival de Recife, já ficaria contente com uma passagem até Curitiba durante o festival. Estamos tentando conseguir patrocínio para a passagem de avião até Curitiba, senão fica inviável nossa participação, lamentou. O orçamento apertado do festival de Curitiba só pode oferecer a passagem de ônibus. Eu não sei se isso compromete a qualidade do evento, mas fica difícil para os diretores, principalmente das produções de locais mais distantes, irem até o Sul dessa forma, opina Pimentel.
Na avaliação do vice-presidente da Associação de Vídeo e Cinema do Paraná, Paulo Munhoz, percalços como esses não chegam a deixar o festival curitibano aquém de outros eventos realizados no Brasil. O festival está amadurecendo, ressalta. Independente dos problemas financeiros é um evento importante, que funciona como divulgador do cinema nacional. Ele ressalta apenas que o evento possa melhorar em questões de organização e logística. Mas é um festival bastante criterioso na seleção e isso é muito importante.
Para a produtora gaúcha, Gisele Hiltl, que participou do juri de pré-seleção dos filmes que integram o evento, essa é uma característica peculiar do festival. A qualidade das produções inscritas é uma passo para qualificação do mercado, compara. Para Gisele, que atualmente assina a produção de Jacobina, mais recente trabalho de Fábio Barreto (O Quatrilho), as oficinas realizadas no evento também são significativas e podem abrir espaço no mercado. Precisamos produzir e olhar para o mundo, diz.
Gisele ministrou a oficina de produção promovida pelo festival. No evento são oferecidas todas as oficinas necessárias para a montagem de um curta-metragem em 35 mm, que é apresentado no próprio evento. Este ano, o trabalho que está sendo realizado pelos alunos foi intitulado Segundo Ato e será apresentado na próxima terça-feira, quando acontece também a cerimônia de premiação e encerramendo do festival.
Serviço
O 6º Festival de Cinema, Vídeo e DCine de Curitiba acontece de 9 a 14 de maio, com projeções na Cinemateca e no Canal da Música. Ingressos a R$ 1,00. Mais informações pelo telefone (41) 568.2085.


