Nelson Sato
De Londrina
Tudo parecia já esmiuçado. As vanguardas artísticas pareciam, já, assunto esgotado. Você consultava os livros de história de arte, e lá constavam as peripécias dos dadaístas, futuristas e surrealistas virando de cabeça para baixo a arte do começo deste século.
Quando o assunto já parecia saturado, um livro de um autor desconhecido traz novas luzes à tradição dos inconformistas. Assalto à Cultura – Utopia, Subversão e Guerrilha na (anti)Arte do Século XX, do inglês Stewart Home, chega agora ao Brasil trazendo um mapeamento de movimentos radicais jamais catalogados pelos estudos acadêmicos.
Quantos já leram alguma coisa sobre o grupo Cobra, uma dissidência do surrealismo que repelia as inclinações místicas e estetizantes de André Breton e toda a facção francesa? Ou sobre o Movimento Letrista, cujos integrantes interromperam uma performance do líder dos dadaístas Tristan Tzara aos gritos de ‘‘chega dessa coisa velha’’?
A linhagem utópica de Stewart Home tem antecedentes nos escritos de Winstanley, Coppe, Marquês de Sade, Charles Fourier, Lautreamont, Willian Morris e Alfred Jarry. Passa pelo Futurismo, Dadaísmo, Letrismo e Surrealismo e tem continuidade nos movimentos situacionista, Fluxus, Mail art, punk rock, neoísmo e cultos anarquistas contemporâneos.
O autor remete os movimentos enfocados às heresias medievais. ‘‘Os heréticos da Idade Média buscavam abolir o papel da Igreja e realizar o paraíso na Terra, enquanto seus equivalentes do século XX buscam o fim da separação social confrontando política e cultura simultaneamente’’ – explica.
Segundo ele, as vertentes utópicas dignas do nome sempre almejaram a integração de todas as atividades humanas. Quem aderiu à causa trabalhou com arte, política, arquitetura, urbanismo e demais especializações daí derivadas. ‘‘Os utópicos’’, nota ele, ‘‘visam criar um novo mundo, onde essas especializações não mais existam’’.
Apesar de tê-los trazido à tona, o autor não poupa críticas a essa legião de iconoclastas. Sua análise revela-se devastadora em muitas passagens. Ao abordar a Internacional Situacionista, afirma que ‘‘a técnica teórica dos vários grupos era apresentar generalizações grosseiras como fatos incontestáveis’’, o que teria produzido ‘‘propaganda eficiente e teoria extremamente ruim’’.
Os situacionistas, aliás, ocupam três capítulos do volume. De sua fundação em 1957 à extinção no final dos anos 60, o autor repassa as inúmeras divergências internas entre as facções rivais. A linha oficial era encabeçada por Guy Debord, autor do célebre A Sociedade do Espetáculo, publicado no ano passado no Brasil.
O movimento se espalhou como um vírus pela Europa criando núcleos na França, Itália, Alemanha, Bélgica e Dinamarca. Sob o signo da polêmica, um dos militantes lançou uma campanha para que o pintor milanês Nunzio Van Guglielmi fosse solto do manicômio onde estava preso. Guglielmi fora internado por quebrar a vitrine da pintura ‘‘O Casamento de Uma Virgem’’, de Rafael, e grudar na tela um panfleto a favor da revolução e contra o Governo. Já em 1966, a ala francesa do movimento publicou um panfleto intitulado ‘‘Sobre a Pobreza da Vida Acadêmica’’ que provocou alvoroço no país.
Também causavam controvérsias as performances do grupo Fluxus, de matriz nova-iorquina e do qual fizeram parte artistas como Yoko Ono, Nam June Paik e Joseph Beuys. Entre 1962 e 1963, eles agitavam platéias com intervenções bizarras que incluíam destruição de instrumentos musicais, exercícios com lâminas de barbear e mergulhos numa banheira cheia de água. No auge da contracultura, ligaram-se a hippies e outros malucos.
Na mesma época, a Holanda era sacudida pelos Provos, um bando de anarquistas de imaginação fértil que propunham elaborar soluções para problemas sociais e ecológicos de Amsterdã. Logo de cara, eles foram reprimidos pelas autoridades, que confiscaram a revista de lançamento do movimento. O motivo era um diagrama reproduzido do manual ‘‘Practical Anarchist’’ (de 1920), que supostamente instruía o leitor na produção de um explosivo.
De outra feita, eles anunciaram que bicicletas brancas seriam espalhadas pela cidade para ser usadas pela população em geral. O plano foi um enorme sucesso como uma provocação contra a propriedade privada capitalista e o ‘‘monstro do carro’’, mas fracassou como experimento social. A polícia, aterrorizada pela idéia de propriedade comunitária sendo deixadas nas ruas, confiscou todas as bicicletas que acharam sem dono ou sem correntes.
A reputação internacional dos Provos, porém, veio do ataque à procissão do casamento da Princesa Beatrix e do Príncipe Claus Von Amsburg, com bombas de fumaça, em maio de 1966. A polícia revidou imediatamente batendo nos manifestantes contrários à monarquia. No entanto, o povo de Amsterdã demonstrou seu apoio à causa Provo, votando num representante do movimento para vereador nas eleições locais três semanas depois.
A tradição de desconcertar cabeças alheias teve momentos impagáveis também nos anos 50, com as sessões de cinema promovidas pelo movimento Letrista, comandado por Isidore Isou. Uma das produções do grupo – ‘‘O Filme já Começou?’’ – trazia letras, números e outros sinais desenhados diretamente na película. Quando o filme era exibido, objetos eram pendurados na tela e manipulados durante a projeção.
Em ‘‘Filme Debate’’, a discussão sobre o filme é o próprio filme. Já ‘‘Hurlements en Faveur de Sade’’, não continha nenhuma imagem. Com a duração de um longa-metragem, era basicamente um filme preto, com apenas o clique do projetor como trilha sonora. Para aliviar a monotonia, apareciam flashes ocasionais de luz branca.
Mas essas travessuras são apenas aperitivos. Dezenas de outras figuram entre as 200 páginas de Assalto à Cultura, que chega ao público brasileiro pela editora Conrad. Stewart Home é autor ainda de vários ensaios e dos romances Puremania e Defiant Pose. Atualmente edita a revista Smile e se dedica a agitar uma greve mundial da arte para janeiro do ano 2000.Livro que trata dos movimentos artísticos mais radicais deste século chega ao Brasil
Reprodução‘‘A primeira onda de bandas punk flertava com a política, a maioria como The Clash (foto) e os Sex Pistols de uma perspectiva de esquerda’’ReproduçãoOs Provos, da Holanda, atacaram o desfile de casamento da princesa BeatrixReproduçãoYoko Ono: participante do movimento de vanguarda FluxusReproduçãoTristan Tzara: o líder do atrevido movimento dadaísta

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