Sob o signo da história
Uma espetacular convivência com a história é o legado que o turista recebe em Cuzco. Um exemplo é a Igreja de Santo Domingo. Construída em cima de um grande templo de adoração ao sol, Santo Domingo abriga em seu interior o complexo de Qorikancha, uma série de construções incaicas que incluem lugares sagrados e pedras de sacrifício humano.
A Igreja é apenas um exemplo do que está espalhado pelas ruas da Cidade. Situada a 3.350 metros de altitude, Cuzco mantém uma população formada por descendentes dos Incas. Lá não há o aspecto europeu encontrado em Arequipa. É uma cidade quechua, meca de povoados milenares.
O massacre comandado pela Espanha é explícito na Catedral da cidade. Ali, o grande altar construído em prata - extraída das minas da região - atrai fiéis e curiosos. Um olhar mais atento, porém, revela a saga desse povo. Em outro ponto da igreja, uma estátua representa um santo espanhol, triunfante, marchando com seu cavalo sobre um guerreiro Inca. Em algumas esculturas, Cristo se apresenta banhado em sangue e chagas, com rosto cadavérico e expressão de desfalecimento. Tudo para assustar os antagonistas do catolicismo. Em contrapartida, alguns crucifixos construídos pelos camponeses representam Jesus com traços indígenas e roupas incaicas.
Foto: DivulgaçãoA cidade e sua história: cultura nativa em altaToda essa estratégia não foi suficiente para aplacar a cultura nativa. Nas escolas peruanas, onde se ensina o quechua, a história não é contada sob a ótica do colonizador. O artesanato, a música e a culinária refletem mais costumes indígenas do que coloniais.
Por isso é comum encontrar camponeses com seus trajes típicos caminhando pela cidade, trazendo consigo um par de lhamas. Muitos artesãos viajam quilômetros para vender seu produto. Paulina Calha¤alpa, uma camponesa de Chinchero, se desloca 28 quilômetros até Cuzco para negociar cabaças entalhadas a buril. Nas peças, ela retrata histórias da cultura quechua. O trabalho minucioso pode ser adquirido por 30 nuevos soles, cerca de 10 dólares.
Em frente à Igreja de Santo Domingo, uma senhora chamada Anselma vende produtos plantados no Vale Sagrado: laranjas, bananas e o pepino, uma fruta adocicada típica da região. Anselma mora na periferia e caminha toda manhã até o centro para montar sua barraca.
Foto: DivulgaçãoArtesanato, música e culinária refletem costumes indígenasComo Anselma e Paulina, boa parte da população de cerca de 300 mil habitantes vive do turismo e do comércio que ele provoca. São guias, artesãos, vendedores, funcionários de hotéis, cambistas ou camponeses que cobram para exibir suas vestes tradicionais às máquinas fotográficas ou simplesmente cantar uma canção andina.
A cidade tem atrações de sobra para uma atividade turística tão movimentada. Em suas cercanias, há mil anos, viviam várias tribos, entre elas os Incas. Todos esses indígenas falavam o quechua. O primeiro governante das cercanias de Cuzco, provavelmente, foi Manco Capac.
Segundo o livro Qosqo - El Ombligo del Mundo, do pesquisador Tony Morrison, os Incas tranformaram a cidade em um pólo religioso e político, erguendo um poderoso império. Os espanhóis chegaram e os homens de Francisco Pizarro aprisionaram em 1533 o líder Atahualpa. Pela sua liberdade, o guerreiro pagou um resgate que ultrapassou 6 mil quilos de ouro e 12 mil quilos de prata.
Foto: DivulgaçãoCuzco mantém população que descendente dos IncasOs europeus ficaram impressionados com a riqueza de Cuzco, construída por pedras meticulosamente desbastadas e encaixadas. As construções mais simples eram de barro cru, mas os objetos de ouro se espalhavam por todos os cantos. A cidade era uma metrópole de templos e prédios administrativos. Para os Incas, religião, política e ciência não se dissociavam.
Entre as ruínas que cercam a área urbana, estão Rumicolca, uma imponente construção de pedra que marca a entrada ao sul do Vale de Cuzco. Outra construção importante é Sacsaywuamán, edificada com enormes blocos de pedra - sua função ainda hoje é desconhecida. Muitos dizem que, em sua praça, eram feitos os rituais ao sol e a preparação de guerreiros.
Outro templo, Kkenko, foi esculpido na rocha, preservando formas naturais. Um corredor dá acesso à caverna onde está uma grande pedra de sacrifícios. Para a cultura incaica, o mundo subterrâneo era dominado pela serpente, que representava a morte.
Perto de Cuzco estão ainda Tambo Machay, um paredão onde há duas fontes de água. Perto do Rio Vilcanota levanta-se as ruínas de Pisaq, um complexo de prédios cercados por terraças agrícolas de contenção. Além de importantes construções, Pisaq ainda possui um imponente templo do sol.
A diversidade cultural peruana deve ser observada com tranquilidade. É importante estar bem informado para compreender melhor o sincretismo do lugar e não passar batido por prédios importantes. Cuzco é uma cidade para se andar a pé e observar o cotidiano do povo - educado e trabalhador -, ruas e igrejas. Além da Catedral, vale visitar também o Museu de Arte Religiosa, a Igreja de San Blas, os prédios da Companhia de Jesus, La Merced e San Agustin. Esse relaxamento é importante, principalmente porque de lá se parte para Machu Picchu. Para quem optar por seguir a trilha Inca, descansar é fundamental.
Ainda assim, a noite de Cuzco é convidativa e prolongada. Há desde restaurantes a bares montados em ruínas incaicas, até boates onde a música brasileira é executada em meio a sucessos latinos.
Visitando Cuzco, o turista verá que uma viagem ao Peru já compensa se terminar ali. Mas o roteiro vai mais longe, e inclui o trem que sai da cidade atravessando o Vale Sagrado rumo a Machu Picchu, a capital do turismo peruano.Foto: DivulgaçãoBoa parte da população de cerca de 300 mil habitantes vive do turismoRanulfo Pedreiro





