Sob o estigma da vingança
Curitiba O que você faria se sua vida estivesse correndo ao contrário e cada vez que o relógio marcasse mais um minuto, um tempo igual estivesse sendo retirado da sua existência? Esse é o dilema que vive Tonho, personagem central de Abril Despedaçado. Marcado por um rígido código de honra familiar, ele vê sua vida rasgada ao meio, depois que cumpre a tradição: matar um membro da família rival. Depois disso, porém, ele tem pouco menos de um mês de trégua, até que tenha o mesmo destino do homem que matou e de outros de sua própria família. No novo filme de Walter Salles Júnior, Tonho é interpretado por Rodrigo Santoro. O ator esteve em Curitiba ontem para falar sobre o longa-metragem que estréia amanhã, no Sul do País.
Abril Despedaçado é baseado no romance homônimo do albanês Ismail Kadaré. Assim como o livro, o filme passeia pela temática da vingança para narrar uma história repleta de metáforas. Mas livro e longa são leituras diferentes, como ressalta Santoro. No filme, a estrutura dramática é outra, salienta. O ator não vê alteração na força original do romance. Ambos, comenta, relatam um código de leis não escritas que determina a vida e a morte dos membros de uma família.
No livro de Kadaré (Companhia das Letras, 2001), a história se passa em 1930, em algum lugar da Albânia, onde o século XX só se manifesta pela passagem esporádica de um avião. O filme também é ambientado nas primeiras décadas do século passado (sim, somos todos do século passado). Mas os personagens de autor albanês têm sensibilidade e destinos bem distintos da proposta de Walter Sales.
Algumas coincidências bastante sugestivas, no entanto, aconteceram durante as filmagens. Quando no início do trabalho, Rodrigo Santoro ouviu passar um avião, assim como sugere o livro, a situação o ajudou nos primeiros passos trilhados para construir o personagem. Um processo longo e doloroso, conforme afirma. A imagem que me veio à mente era do interior do avião, mas imediatamente tentei descontruir isso, conta. Tonho nunca conheceu um avião e nem sequer sabe como ele consegue voar.
Assim como Santoro, todo o elenco passou quatro meses filmando no interior do nordeste brasileiro. Metade desse tempo foi dedicado à pesquisa. Os atores não só estudaram roteiro e personagens respectivos, como passaram a viver como eles. Cortar cana, fazer rapadura, operar a bolandera, fizeram parte da rotina das pessoas envolvidas.
Como nos filmes anteriores de Walter Salles, o diretor optou por mesclar atores profissionais com alguns que nunca tiveram experiência em cinema. Descobriu, assim como em Central do Brasil, um ator mirim que foi selecionado entre mais de 1,5 mil inscritos. Ravi Ramos de Lacerda, interpreta Pacu, ou menino. Só menino como são chamados os guris nordestinos. Mas esse não é um filme nordestino. É um filme filmado no nordeste, avisa Santoro.
A direção de atores também ficou a cargo de Luiz Carlos Vasconcelos, o palhaço Xuxu. Ele interpreta (também) Salustiano, o dono do circo itinerante que passa pela cidade próxima de onde vive Tonho e muda o seu destino. Isso porque no circo há uma mulher, Clara, interpretada pela atriz paulista radicada em Salvador, Flávia Marco Antônio, que também estréia nas telas.
O menino, interpretado por Ravi, é irmão de Tonho. O pai é interpretado pelo experiente José Dumont e a mãe por Rita Assemary. Assim, sem nomes, os personagens trazem uma carga dramática extrema. São pessoas do interior, que não falam, não se expõem, mas estão em ebulição, argumenta Santoro. Ele compara os personagens com os nativos contratados pela produção para auxiliar nas filmagens. Em três meses de trabalho, não os vi sorrir.
Tonho, o menino, o pai e a mãe também sorriem pouco. Eles tem papéis definidos na história do universo (deles). E cumprem bem esse papel. Não questionam a existência, apenas seguem o destino traçado, que convenhamos não inclui nem felicidade nem tristeza, apenas a (sobre) vida. Quando Tonho, passa a refletir, a seu modo, sobre a tradição imposta, esse universo se desestabiliza.
Mas é tudo muito contido, diz o ator. Assim como na cena, em que o pai manda ele se calar e ele nega com veêmencia, ou numa cena completamente oposta em que o pai abre um sorriso inesperado, feio quase, de quem nunca aprendeu o gesto. É quando o mundo fica em silêncio. São cenas que mostram tanto a força dramática do roteiro escolhido pelo diretor, como um lirismo característico de Walter Salles, com uma fotografia impecável e uma direção geral idem.
Todo esse curioso e espetacular processo de criação deu origem a um outro livro, com o mesmo nome, mas com um outro enfoque. Trata-se de um making of escrito, define Santoro. O livro Abril Despedaçado - História de um filme e roteiro (Editora Companhia das Letras, 2002), traz uma série de fotografias de Ana Luiza Muller e também o roteiro assinado por Walter Salles, Sérgio Machado e Karim Ainouz. Já pode se encontrado nas livrarias desde o mês passado, diferente do filme que foi lançado primeiro fora do País e que só agora chega ao Sul, para o deleite dos amantes do (bom) cinema.





