‘‘Óculos, vestido azul, sapato preto, bolsa branca e... doida’’. Assim se encontrava Stella do Patrocínio (1941?-1992) quando foi levada, pela primeira vez, à Colônia Júlio Moreira. A história da personagem real que viveu 30 anos na extinta instituição psiquiátrica carioca, com diagnóstico de esquizofrenia e personalidade psicopática, será contada no palco pela atriz Clarisse Baptista, do Acre. Ela se apresenta hoje e amanhã, às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo, dentro da programação do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Stella do Patrocínio viveu uma história de reclusão e sofrimento, dividida entre o silêncio e uma inquietante criação poética recitada com eloquência nos momentos de crise. A peça mexe com a loucura e com o preconceito, mas não se atém apenas a isso. Aborda religiosidade, amor, repressão, amor, solidão, culpa, sexualidade. Temas que para Clarisse são fortes fatores enlouquecedores.
Em um quarto com uma cama de hospital, uma cadeira e um espelho, Stella do Patrocínio revela ao público os pensamentos de uma mulher estigmatizada por sua condição de louca, e que moldou para si um universo no qual se permitia habitar livremente entre palavras e silêncios. O cenário e figurinos são inspirados em desenhos dos internos do hospital acreano e nas obras de Artur Bispo do Rosário, contemporâneo de Stella.
Os depoimentos de Stella foram gravados em meados dos anos 80 por artistas plásticos que fizeram um trabalho com os internos da Colônia. ‘‘Ela não se envolvia nas oficinas e ficava falando pelos cantos. Os artistas gravaram suas falas e, durante a exposição de trabalhos, colocaram o áudio’’, relata Clarisse. A atriz teve acesso à transcrição das fitas e o que chamou sua atenção foi a teatralidade dos depoimentos.
A emocionante atuação de Clarisse Batista acentua a expressão perturbada e ao mesmo tempo poética da personagem. Momentos dos mais marcantes acontecem quando Stella do Patrocínio entoa a canção religiosa ‘‘Prova de amor maior não hᒒ. O espectador tem a oportunidade de perceber o ser humano que resiste apesar da loucura e suas consequências. O público, às vezes, pode sair do teatro com uma indagação: o que é a loucura?
SERVIÇO:
‘‘Stella do Patrocínio’’, com a atriz Clarisse Baptista (Rio Branco/AC). Direção: Clarisse Baptista. Assistência: Nena Mubarc. Cenário: Clarisse Baptista e Nena Mubarc. Iluminação: Luis Carlos Souza dos Santos.

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