O escritor norte-americano Tennessee Willians viveu um inferno familiar. O pai era um caixeiro-viajante autoritário, de temperamento mesquinho. A mãe tinha um comportamento submisso e tolerante em relação ao marido. A irmã Rose se afundou num abismo intransponível. Somando-se a esse quadro, uma infância doente o conduziu para o mundo da imaginação e dos livros, amenizando o constrangimento por estar vivo. ‘‘A casa não é um refúgio agradável’’, confessou Tennessee Willians.
A relação com a irmã Rose foi intensa e mórbida. Na juventude, quando ele sofreu um colapso nervoso, Rose não suportou o choque e ensandeceu definivamente. Sua adorada irmã foi submetida a uma lobotomia. Foi um caminho sem volta. Com uma vida tão atormentada, Tennessee Willians tentou resolver nos palcos seus insolúveis conflitos familiares. Fracassou neste aspecto. Talvez, por isso, algumas de suas peças se tornaram clássicos da literatura americana. Solidão, marginalidade, sexualidade reprimida e violência estão presentes em quase todos seus textos.
Willians tornou-se um autor premiado e aclamado. Também foi duramente criticado por produzir subliteratura. Sua obra é uma evocação ao passado. Em quantas peças foi possível, ele matou a figura paterna e moldou grandes arquétipos femininos, personagens forçados a viver num mundo imaginário. O estigma da loucura perseguiu eternamente o autor.
Em ‘‘Out Cry’’ o tema foi retomado. ‘‘Você e sua irmã são loucos’’ - citação de um telegrama recebido pelos personagens - possui um sentido ambíguo. Este trecho é o gatilho que detona toda a loucura de Clara e Felice, dois atores vivendo marginalmente a profissão. Eles encenam o texto ‘Peça para Dois Personagens’ e se descobrem na encenação. Na peça dentro da peça, além do autor exorcizar seus fantasmas pessoais, ele também filosofa sobre a loucura que é ser ator. Afinal, será o exercício da criação um caminho para a insanidade? Neste jogo de mimetismo proposto por Willians até onde esse ofício de visionários pode nos levar? O espectador não pode ficar desatento um segundo sequer, caso contrário, não há como perceber quando termina uma peça e começa outra. Até para filosofar sobre os delírios e delícias de ser ator, Tennessee Willians ambientou a discussão no ninho familiar. ‘‘Out Cry’’ é a trajetória subterrânea do ofício de atuar e tem como ponto de partida a lucidez, a realidade penosa de dois atores que penetram num mundo delirante dos irmãos/personagens. Buscar o outro, confundir-se com o outro é a síntese do espetáculo.
(F.F.)

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