Sob o efeito da badalação
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de maio de 1999
Nelson Sato 
Já estava ficando chato. Abria-se os jornais e lá estava Tom Zé em páginas inteiras falando de seu novo disco Com Defeito de Fabricação, que acabava de sair no exterior sob aclamação deslumbrada de toda a imprensa norte-americana, incluindo desde críticos sisudos do New York Times a resenhistas pop da revista Spin.
Já estava ficando realmente chato acompanhar a babação em torno do compositor baiano, e de seu novo trabalho, e não ver nem sinal da edição nacional do CD. O pior da história é que logo após o lançamento lá fora, os brasileiros foram surpreendidos com a alta no preço dos CDs importados, o que aumentou a angústia do público.
ReproduçãoCom Defeito de Fabricação foi lançado no final do ano passado pela gravadora norte-americana Luaka BopBem, chegou a hora de matar a vontade. Com Defeito de Fabricação está finalmente saindo no Brasil pela gravadora Trama. Com Defeito de Fabricação, no entanto, chega às lojas com defeito de excessiva badalação. Contrariando a unanimidade, o disco pode até desapontar quem se deixou levar pelo hype. É um belo disco, mas não a obra-prima pós-tropicalista como foi saudada à exaustão nos últimos meses.
Compare-se, por exemplo, com o último álbum de Itamar Assumpção e veja que disco recente poderia de fato merecer a nota máxima. A referência ao compositor da Penha, aliás, não é gratuita. Traduz-se em vestígios musicais no próprio material sonoro apresentado pelo mestre de Irará, com o qual mantém afinidades não apenas em termos de trajetória (os dois, vale lembrar, são chamados de malditos) como de peculiares soluções rítmicas e de arranjo.
Em Burrice, as semelhanças gritam na ironia da letra, na levada e nos vocais de apoio femininos. Tom Zé retrabalha gêneros diversos, tornando-os quase irreconhecíveis. O conceito parece ser o de colagem de retalhos musicais, através do qual ele garimpa e reinventa tanto ritmos nordestinos (O Gene, Esteticar, Xiquexique etc) e samba (Politicar, Onu: vendem-se Armas) quanto erudito (Juventude Javali) e remotas canções folclóricas (Emerê).
Entre as melhores faixas do disco desponta O Olho do Lago, pontuada por ruídos, percussão e um piano que parece fora do tempo. Lembra Tortoise, a banda norte-americana com a qual Tom Zé começou a excursionar pelos Estados Unidos esta semana. A letra, de composição concretista, é de Cid Campos, filho do poeta Augusto de Campos.
Além dele, Tom Zé traz parcerias com outras figurinhas carimbadas da cultura paulistana como José Miguel Wisnik e André Abujamra. O encarte do disco inclui dois textos-manifestos: Estética do Plágio e Defeito de Fabricação. No primeiro, diz num trecho que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a era do plagiocombinador.
Ainda no encarte, ele chama as tais plagiocombinações de arrastões, citando as supostas fontes de pilhagens abaixo de cada uma das letras. A faixa Dançar, por exemplo, seria um arrastão de Jorge Luis Borges, Caetano Veloso e Gilberto Gil. E assim se segue. Já no outro texto-manifesto, Tom Zé politiza o discurso afirmando que os habitantes pobres do Terceiro Mundo são considerados - pelos patrões do Primeiro Mundo - andróides com defeitos de fabricação pelo fato de pensarem, criarem e sonharem.
Retórica engajada à parte, os defeitos de fabricação conquistaram definitivamente o Primeiro Mundo, onde Tom Zé virou agora sinônimo de vanguarda pop. A revista Rolling Stone desse mês chega a colocar o álbum The Best of Tom Zé / Brazil Classics Vol.4, lançado em 1990 pela Luaka Bop, numa lista dos 150 discos mais importantes da década.
Botem esses gringos para ouvir os melhores álbuns de Caetano, Jorge Benjor, Jards Macalé, Gil, Luiz Melodia, Itamar e cia., que eles perderão o rumo de casa.
Defeito 2: Curiosidade


