Enquanto as emissoras de tevê vem fazendo cortes nas despesas, a Rede TV! importa equipamentos de última geração, faz novas contratações e anuncia a inauguração de mais uma central de produção em São Paulo - orçada em R$ 100 milhões. A diferença, segundo o vice-presidente da emissora, Marcelo de Carvalho, está na visão comercial da empresa - que segundo ele só fica atrás da Globo e do SBT em verbas publicitárias. ''Aqui, o anunciante é quem manda. Afinal é com o dinheiro dele que pagamos nossas contas'', assume, com desconcertante sinceridade.
Fazer novelas próprias não está nos planos da Rede TV!. Mas a emissora pretende produzir seriados no gênero ''sitcom''. Além disso, quer dar ''cara nova'' a todos os programas, com cenários virtuais e bem acabados. No conteúdo, porém, Marcelo de Carvalho afirma que vale a ''lei do ibope''. A meta do ano é consolidar o terceiro lugar em audiência. O programa que não corresponder à expectativa sai da grade. ''Só não apelamos para o bizarro porque a Rede TV! é uma televisão alto-astral'', argumenta Marcelo - para quem atrações discutíveis como o ''Teste de Fidelidade'', de João Kléber, são pura brincadeira.
Você anunciou que 2003 é um ano de mudanças na Rede TV! e a emissora começa a fazer ''sitcons''. A idéia é partir para a teledramaturgia?
Sem dúvida. As ''sitcons'' fazem sucesso nos Estados Unidos e têm futuro no Brasil. Nós fizemos uma experiência com ''O Golpe da Madame'', de João Kléber, no final do ano, e alcançamos o segundo lugar de audiência! Mas não pensamos em fazer novelas. É um produto muito caro... Fora isso, vamos apostar no esporte, transmitindo a Fórmula Mundial, com Fernando Vanucci. Também compramos o maior caminhão-estúdio do mundo para o jornalismo e estamos importando equipamentos com tecnologia de ponta. Agora, a grande novidade é o Alphaville 2, um mega-estúdio, com capacidade para mil pessoas, que vamos inaugurar em março.
Mas existe alguma reformulação estratégica?
Nós temos uma programação alternativa e um público eclético. Queremos ser a televisão que as pessoas assistem quando não estão vendo a Globo. Numa reunião com os 35 diretores da Rede TV!, determinamos que cada programa tem de estar, pelo menos, em terceiro lugar no ibope. Quem consolidar esta posição terá o salário dobrado. Se a ''pegadinha'' der mais audiência num dia, no outro, tem de ter mais ''pegadinha''.
E a Rede TV! não corre o risco de ficar estigmatizada, com programas apelativos?
Não caímos nesse erro. É possível ter fórmulas populares de sucesso, sem descambar para o popularesco. Nós vetamos as coisas feias. O bizarro jamais terá espaço na Rede TV!. Nossa programação precisa ser leve, engraçada, de bom gosto. Agora, o que não dá ibope também não tem espaço na Rede TV!. O maior erro dos programadores de televisão é serem pretensiosos. Acharem que ''ensinam'' a fazer tevê. Ora, quem ensina é o público!
O travesti Charlote Pink, personagem de João Kléber, foi vetado por ser considerado apelativo. O ''Eu Vi na Tevê'' e o ''Canal Aberto'' podem sofrer novas restrições?
Os programas do João Kléber têm 20% do ''share''. Ou seja, na faixa horária deles, 20% de todos os televisores ligados no Brasil estão sintonizados na Rede TV!. Algumas coisas, de fato, foram cortadas. Mas o resto é um besteirol positivo e, diria até, ''cult''. Quem não gosta de assistir ao ''Teste de Fidelidade''? Aquilo é engraçado, dá ibope e vai continuar.
Qual é o peso da opinião dos anunciantes sobre a programação?
Eles têm voz ativa e mandam na Rede TV!. Que ninguém se engane: é o anunciante quem paga a conta da televisão aberta. Nós temos sido prestigiados com a terceira maior verba publicitária. O anunciante põe dinheiro na Globo, porque tem de pôr. Depois, põe dinheiro no SBT. Eu também poria... E, em seguida, ele põe dinheiro na Rede TV!. E tudo que nós fazemos vem do dinheiro dos anunciantes. Não tem segredo!