O cowboy solitário, que marca para sempre a pacata cidade do oeste com sua passagem heróica, continua cavalgando no imaginário mundial. A publicação do livro ‘‘O Filme de Faroeste – Ensaios de Crítica Cinematográfica’’, de Guido Bilharinho, prova a perenidade do mito em 274 páginas.
O livro traz a chancela do Instituto Triangulino de Cultura, de Uberaba, Minas Gerais. Guido é autor de outros títulos dedicados à sétima arte, como ‘‘Cem Anos de Cinema’’, ‘‘O Cinema Brasileiro nos anos 90’’ e ‘‘O Cinema de Bergman, Fellini e Hitchcock’’. Seu novo volume traz textos curtos focalizando a vasta produção norte-americana de western.
No primeiro bloco, investiga os trabalhos dos principais cineastas do gênero. ‘‘Todo filme de faroeste trata de assunto análogo’’ – escreve. ‘‘Mas, o que distingue uns dos outros, destacando alguns em detrimento dos demais, não é apenas a estória, mas o tratamento estético cinematográfico que lhes é dado. É claro que a trama tem que se sustentar, conquanto não seja o elemento fundamental da ficção. O modo de lidar e mostrar o relacionamento entre as diversas personagens é que torna o filme de valor ou não’’.
O mestre John Ford abre a coletânea com o emblemático ‘‘No Tempo das Diligências’’ (1939), um dos longas-metragens que mais fielmente capturaram o espírito americano no instante de sua formação. Neste filme, anota ele, ‘‘a individualização das personagens é esplêndida, mesmo que nela se possa encontrar algum ou alguns estereótipos. Desde a primeira aparição de cada um dos personagens, já se tem delineado seu completo talhe humano. Até o simples modo de se entrar numa sala (como o do cocheiro numa das paradas para mudança dos cavalos) é revelador’’.
Além de Ford, o autor destaca ainda as filmografias de Howard Hawks, Anthony Man, Raoul Walsh, John Sturges, Sam Peckinpah, Clint Eastwood e Burt Kennedy. Ao examinar a obra de Sérgio Leone, frisa a diferença de seu trabalho do restante da produção western-spaghetti, a vertente italiana paródica e fake que passou a ser explorada a partir do declínio do bangue-bangue de matriz hollywoodiana.
‘‘Conquanto Leone seja italiano, nesse filme (Era Uma Vez No Oeste), ao invés do spaghetti deglutir o western e transformá-lo num produto comercial excrescente, ocorre o contrário’’ – observa. Na segunda metade de livro, Bilharinho examina filmes dividindo-os por décadas – dos anos 40 aos 90. Ao deter-se em ‘‘A Noite dos Pistoleiros’’, uma produção dos anos 60 de Arnold Laven, dispara azedume.
‘‘Esse filme não possui nem ostenta nenhuma qualidade ou elemento perdurável e, muito menos, qualquer contribuição ao gênero’’ – diz. O comentário inclui uma crítica a uma cena em que um cavalo permanece imóvel, ainda que completamente solto, enquanto um ruidoso tiroteio é travado próximo a ele. Em contraponto, ao debruçar-se sobre a parca produção da década de 90, enaltece ‘‘Dead Man’’, dirigido por Jim Jarmusch.
‘‘Que dizer de um faroeste no qual o protagonista chama-se Willian Blacke e o índio (a maioria dos filmes dessa vertente cinematográfica os tem) leu e guarda de cor textos desse poeta britânico?’’ – pergunta. Conclui o comentário assinalando que – neste filme – mantém-se íntegro o mito do herói do oeste, sempre em defesa própria, agindo em reação à extrema hostilidade do meio.
Serviço:
Livro ‘‘O Filme de Faroeste – Ensaios de Crítica Cinematográfica’’. Autor: Guido Bilharinho. Edição do Instituto Triangulino de Cultura, de Uberaba, de Minas Gerais.

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