Luiz Fernando Carvalho garante que foi trabalhando em cima de ''Capitu'', sua última série de tevê, que surgiu a ideia de criar ''Afinal, O Que Querem as Mulheres'', exibida às quintas na Globo. Mas a célebre pergunta de Sigmund Freud, pai da psicanálise, poderia ser facilmente aplicada ao próprio diretor e escritor.
Ávido por novidades e crítico duro dos modelos impostos pela teledramaturgia, Carvalho parece mesmo um eterno insatisfeito. E não esconde que quer ''sempre mais e melhor''. ''Busco caminhos novos. E eles são muito solitários. O mercado só prestigia as consagrações imediatas, as coisas que já foram mostradas e aprovadas pela crítica e pelo público. Mas eu não sei fazer de outra maneira'', avisa.
Longe das novelas desde 2002, quando dirigiu ''Esperança'', Luiz Fernando não rejeita a ideia de se aventurar nos folhetins de novo. Mas se recusa a seguir os padrões utilizados atualmente. ''As novelas de hoje precisam de oito diretores, 35 assistentes, 15 autores... Essas, eu não sei fazer'', ataca.
De onde partiu a ideia de explorar a célebre pergunta de Freud em uma série de tevê?
Quando terminei ''Capitu'', fiquei muito impressionado com a visão do Machado de Assis sobre o homem do final do século XIX. Com a distância que ele coloca entre esse masculino e o feminino - no caso, a própria Capitu. E também com o quanto Dom Casmurro era sombrio, taciturno e absurdamente distante do feminino solar. O contraste entre a vida e a clausura não saía da minha cabeça. Então, me deparei com o questionamento do Freud. E comecei a me perguntar - assim como me perguntava em relação ao texto do Machado - se era um questionamento datado ou não.
Você tem uma preferência por questões e discussões atemporais...
Não necessariamente. Aquela não era uma narrativa atemporal. ''Capitu'' era uma narrativa do final do século XIX, que foi representada de forma aberta em alguns departamentos. Como a música, por exemplo. Vindo para cá, comecei a me questionar se essa pergunta do Freud também seria datada ou não. Desenvolvi essa ideia e percebi que realmente não é datada e que, aqui e agora, temos vários homens e mulheres ''freudianos''. E que esse universo ''freudiano'' poderia ser representado na Copacabana de hoje. Por isso a história é ambientada lá.
Pesquisar para esse trabalho fez você chegar a alguma conclusão sobre a pergunta que dá nome à série?
A pergunta não foi respondida até hoje. Não ainda. E não sei quando será. Nem mesmo se será. Mas acho que esse questionamento não cabe apenas às mulheres. Ela pode e deve ser transferida a outras categorias. Afinal, o que querem os homens? Afinal, o que querem os adolescentes? E as crianças? E as prostitutas? E os médicos, os garis, os banqueiros? Afinal, o que quer a Dilma Rousseff? O que queremos todos nós, humanos?
Toda essa pesquisa mudou sua forma de se relacionar com as mulheres?
Ainda não me sinto preparado para responder isso. Continuo mergulhado nesse tema. Estou editando os capítulos. A série foi toda gravada, mas ainda trabalhamos nela. Sempre aprendi muito com tudo que fiz. Mas não sei mensurar o quanto ou o que mudou. Meus trabalhos seguem uma linha diferenciada, isso ajuda a fazer não só com que eu reflita, mas os outros também.
O que você acha que tem de diferente dos outros diretores?
Não sei. Não sei mesmo. A única coisa que posso dizer é que tenho uma trajetória muito solitária. Com tudo de bom e de ruim que essa palavra possa trazer colada a ela. Mas, por outro lado, não sei fazer de outra maneira.
O que você quer dizer com ''uma trajetória solitária''?
Digo solitária porque talvez o mercado, na grande maioria das vezes, só dê prestígio às consagrações imediatas. Àquilo que já foi feito, aprovado e comprovado pela mídia. Eu não. Sempre busco caminhos novos. E, por isso, eles são muito solitários. Se você quiser escrever um texto de uma forma nova, vai se sentir solitário. Mas você deve tentar, se preparar e colocar a ideia em prática. Não pode negar isso. Não devemos ter medo do novo.
E existe espaço suficiente na televisão para projetos como os que você desenvolve?
Infelizmente, hoje o mercado não prepara os profissionais para a renovação. A ênfase é na repetição. Por isso, os resultados, de uma forma geral, são os mesmos já vistos antes, repetitivos. E isso acontece em todas as áreas da cultura, não só na televisão. Falo de literatura, de artes plásticas, cinema, música, enfim, toda a área cultural sofre uma espécie de ditadura do mercado.
Quando você desenvolve um projeto para a tevê, consegue se libertar da pressão do mercado na busca por audiência e seguir apenas seus conceitos artísticos?
Minha maior preocupação é se estou passando a ideia. É com a comunicação do sentimento, de um personagem, de uma luz, um enquadramento, uma atmosfera, de uma história, enfim, da fábula. E ela depende desses vários elementos. Às vezes, me perguntam se vou trazer novidades estéticas. Claro que sim! Cada vez que se muda um tema, você arrasta com isso um novo olhar. Não dá para contar essa história da mesma forma que ''Os Maias'' ou ''Hoje é Dia de Maria''.
Então, não se deixa preocupar com a audiência?
Não recebo isso como uma pressão. A preocupação existe, é natural dentro do mercado. Eu apenas aprendi a lidar com isso. Meu interesse maior é comunicar bem. Se fizer isso, automaticamente o resultado de Ibope será satisfatório para todos.
''Pedra do Reino'' foi um trabalho muito criticado e que não alcançou índices de audiência satisfatórios. Como você recebe resultados como esse?
Os meus trabalhos são sempre tentativas. Algumas conseguem surpreender tanto na expectativa de mercado quanto no lado artístico. ''A Pedra do Reino'', é uma obra extremamente hermética. De saída, a questão era seguir esse caminho, orientado pela própria literatura do Ariano Suassuna, ou fazermos um pastiche disso.
Você bate na tecla de que sua jornada é solitária e que busca o novo, ao contrário da maior parte do mercado, que promove uma série de repetições. Fica difícil encontrar elenco para exercitar isso?
O Brasil é um país de desperdiçados. Em todas as áreas, há muito talento jogado fora ou deixado de lado, escondido. Julgam precipitadamente a atuação de um ator ou atriz. Às vezes, eles poderiam fazer melhor, mas por algum motivo, não deu. E o mercado é cruel, cheio de pessoas que não tiveram uma segunda chance. Fico atento a isso. Olho gente de teatro, cinema e da própria tevê, fico observando pessoas que têm o que dar, que são verdadeiramente artistas. Então, não, não é difícil.

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