Extenso e fascinante, livro do crítico e diretor Peter Bogdanovich reúne entrevistas com ilustres diretores de cinema que fizeram a história de Hollywood
A primeira informação útil – mas não a mais importante – sobre ‘‘Afinal, Quem Faz os Filmes’’ (Companhia das Letras) é que se trata de um enorme, copioso e detalhado livro de 936 páginas. A segunda é que enfrentar a empreitada significa penetrar na vida e obra de 16 das mais notáveis e influentes personalidades cinematográficas que ajudaram a construir a arte e a indústria do filme nos Estados Unidos neste século. Mas nem chegue perto desta obra caudalosa se estiver esperando encontrar nomes como Spielberg, Coppola, Scorsese, Lucas ou muitos outros diretores do departamento blockbuster que se tornaram sinônimo de cinema nos últimos 25 anos. Nenhum deles está aqui. Pelo contrário. O cineasta, crítico e historiador Peter Bogdanovich reuniu entrevistas antigas – colhidas há cerca de 30 anos – e outras mais recentes na tentativa de oferecer ao leitor um olhar ‘‘para dentro’’ de homens como Howard Hawks, Alfred Hitchcock, George Cukor, Otto Preminger, Fritz Lang e Joseph von Sternberg, entre outros.
No total, Bogdanovich reorganizou entrevistas que fez com 16 diretores de Hollywood começando pelos mais velhos e terminando com os mais jovens – nem tão jovens assim. O alentado volume foi escrito em conciso formato perguntas-e-respostas, com o autor apenas ocasionalmente interferindo na primeira pessoa para acrescentar alguma luz contemporânea a determinado assunto.
O título original, ‘‘Who The Devil Made It: Conversations With Legendary Film Directors’’ , veio de uma citação feita pelo realizador Howard Hawks, que funciona como epígrafe: ‘‘Gosto de quase todo mundo que faz a gente perceber quem diabos fez o filme...Porque o diretor é o contador da história e deve ter o seu próprio método para contá-la’’.
O livro está recheado de informações sobre o nascimento e a evolução do filme norte-americano. São informações trocadas entre gente do ramo, muitas vezes técnicas mas nem por isso discriminatórias. O leigo – nem tão leigo assim, se iniciou a leitura – logo vai perceber que pode pegar carona sem sustos maiores na curiosidade de Bogdanovich. Assim, se em determinado momento ele pergunta a Hitchcock qual o significado de determinado ângulo de câmera nesta ou naquela cena, e obtém a resposta técnica pertinente, em outro trecho ele ouve do diretor de ‘‘Os Pássaros’’ – e felizmente reproduz – uma bizarra e engraçadíssima história de suspense contada durante a descida de um elevador repleto de ouvintes ansiosos para ouvir o desfecho, que será o não revelado no térreo.
Nada desprezível também é saber como e Fritz Lang concebeu o clássico ‘‘Metrópolis’’ em sua primeira noite nos Estados Unidos; ou como o diretor alemão confrontou Goebbels depois de realizar ‘‘O Testamento do Dr. Mabuse’’. Ou anda como acabou na lista negra do maccarthismo.
Uma das melhores entrevistas é com o lendário diretor, animador e guru dos cartoons, Chuck Jones. Agora com 88 anos, Jones assistiu há pouco sua carreira ressurgir, assinando com a Warner um lucrativo contrato para ajudar a desenvolver e orientar os esforços do estúdio no terreno da animação. Para quem ainda não ligou o nome à lenda, Jones criou a turma do Pernalonga e o Papa-Léguas, entre muitos astros ilustres do desenho animado. No livro ele fala sobre sua especialidade, sobre a WB e, claro, sobre competição – com Walt Disney, quem mais?
Jones também faz uma inacreditável revelação: em 1963, alguns novos diretores da Warner decidiram abrir espaço para os arquivos do departamento de publicidade. Para isso, queimaram todos os desenhos feitos na casa até 63.
Bogdanovich, ele próprio um diretor importante nos anos 60 e 70, com assinaturas notáveis em filmes como ‘‘Na Mira da Morte’’, ‘‘A Última Sessão de Cinema’’, ‘‘Esta Pequena é Uma Parada’’, ‘‘Lua de Papel’’ e ‘‘Marcas do Destino‘‘ (85), não é particularmente um intelectual. E por isso também o livro é bom. Ele obtém respostas porque sempre se mostrou aos entrevistados aquele tipo de interlocutor a quem as celebridades gostam de falar. Invariavelmente muito, e em detalhes, com confiança. Aqui, a qualidade da conversa é a matéria-prima.

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