Os escritos mais discutidos da história da arte receberam tradução para a língua portuguesa, depois de décadas de atraso. O leitor brasileiro pode agora conhecer uma centelha daquilo que o gênio prismático Leonardo da Vinci escreveu. E não escreveu pouco. Leonardo da Vinci produziu algo em torno de 13 mil páginas, segundo relata o livro ‘‘Os Escritos de Leonardo da Vinci Sobre a Arte da Pintura’’, obra organizada, traduzida e comentada por Eduardo Carreira. A edição leva a chancela da Editora UnB, da Universidade de Brasília.
A tradução dos manuscritos publicadas nesse trabalho inédito abrange as coleções italiana, inglesa, francesa e espanhola. Os documentos de Leonardo da Vinci, ou o que restaram deles, se espalharam por incontáveis coleções no mundo. A Itália atua como guardiã da maior parte dos escritos distribuídos em Milão, Turim, Veneza e Florença. Em Londres, Paris e Madri encontram-se importantes manuscritos. Folhas soltas com anotações e desenhos estão dispersas também na Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda, Hungria e Estados Unidos.
Carreira, primeiramente, faz um apanhado das idéias artísticas, detalha suas técnicas e formação. Descreve também a personalidade e carreira de Leonardo. Na segunda parte do livro constam as traduções, divididas de acordo com as coleções e temas. O autor observa que a intenção do pintor era escrever um verdadeiro tratado sobre a pintura, no qual ele a igualava à filosofia. Esses escritos serviam também como um diário. Durante anos, ele tomou nota de suas experiências em cadernos que guardava com extremo zelo, sem ordená-los.
Leonardo nunca editou qualquer escrito seu. A posteridade recebeu essa função. O pintor italiano escreveu num dialeto toscano, num discurso direto e franco. Segundo relata Carreira, a linguagem era pobre em adjetivos, nomes abstratos, advérbios e verbos.
Seu discípulo dileto, Francesco de Melzi, em 1550 busca uma forma de colocar em ordem o material bruto que o mestre acumulara. Mas não foi frutífero seu trabalho. Somente em 1651 foi publicada a primeira seleção de textos do gênio. Em 1881 reiniciou-se a publicação de textos espalhados pela Europa.
Aquilo que ele escreveu em meados da década de 1840 está carregado de comentários sobre máquinas, problemas de engenharia e soluções mecânicas. Nesse período, ele assume plenamente o papel de engenheiro pela primeira vez. Muitos textos e desenhos continuam encerrados em seu próprio mistério. Cálculos técnicos incríveis ainda por decifrar, relatos sobre o buraco escuro, certas notas sobre a quadratura do círculo demonstram o quanto há para pesquisar da obra do gênio.
Ele reitera incansavelmente nos escritos a supremacia da pintura, em detrimento às outras formas de expressão artísticas. ‘‘Enquanto a pintura compreende em si todas as formas da natureza, vocês, os poetas, não têm senão as suas palavras, que não são universais como as formas ’’. Às vezes, sua apologia chegava a ser quase ingênua.
Eduardo Carreira destaca ‘‘da importância estratégica do desenho no conjunto de suas idéias decorriam os estudos de ótica teórica e prática que acabaram por consagrar uma visualidade definitiva, em um campo no qual somente a fotografia e o cinema, três séculos depois, trariam uma novidade substantiva.’’ Leonardo foi aquele que realmente demonstrou até que ponto a teoria perspectiva poderia levar à precisão da representação visual. Isso equivaleu ao trabalho feito por Galileu na astronomia.
Tecnicamente, ele possuía uma forma peculiar de pintar. Os exames técnicos de suas obras acusam uma pintura finíssima, bastante diluída num veículo muito sutil, repassada inúmeras vezes até o pigmento adquirir densidade. ‘‘A coisa mais impressionante nas obras de Leonardo é aquela sugestão hipnotizadora de vida’’, destaca Eduardo Carreira. Seus estudos de desenho de observação eram empreendidos de forma rigorosa. Consta que ele chegava a seguir um indivíduo o dia inteiro pela cidade, depois o desenhava à exaustão. Só assim, a mente de Leonardo podia capturar a natureza, a forma e os movimentos do indivíduo.
Pesquisador incansável, ele nunca desconsiderava o problema técnico-material. Quando recebia uma encomenda começava a destilar ervas e azeites para fazer verniz. As análises de todo tipo às quais a ‘‘Mona Lisa’’ foi submetida (raios X, raios ultravioleta, raios infravermelhos, análise microscópica, espectografia e ampliação fotográfica) atestaram o admirável estado de conservação da obra. Um dos segredos da conservação da Mona Lisa (La Gioconda) está contido no verniz.
Toda a sorte de lendas pulularam durante séculos sobre o pintor que nasceu no dia 15 de abril de 1452, numa fazenda de Anchiano, nas proximidades de Vinci. Filho ilegítimo de uma aldeã com um tabelião de Florença, Leonardo deixou esse povoado aos 13 anos, quando trabalhou por mais de 12 anos junto ao mais famoso artífice de Florença, Andrea Verrocchio. Há registro de sua convivência com outro gênio da pintura: Michelângelo.
Leonardo, segundo contam os cronistas e memoralistas, era canhoto, vegetariano e se fazia acompanhar de uma trupe de jovens. Sua curiosa toga cor-de-rosa, à altura dos joelhos, chamava a atenção. Na época, as vestimentas eram mais longas e sóbrias. Por essa e outras razões, uma corrente mistificava ainda mais o gênio. Outra, foi hipercrítica e desmistificadora.
Freud analisou a obra de Leonardo da Vinci e insistiu nos desvios, tratando-o como um caso clínico, rotulando-o como um tipo neurótico obsessivo. Carreira critica Freud por não dominar as tradições artísticas ao analisar o gênio.
Mas numa coisa Freud estava certo, Leonardo da Vinci era um obsessivo. Somente isso justifica o afinco com que se dedicou aos mais diversos assuntos do conhecimento humano: engenharia, arquitetura, mecânica, música, estudos de anatomia, escultura e pintura. Outro traço obsessivo se revela nos elementos que compõem sua pintura: luz, sombra, cor, perspectiva, função da imagem e epstemologia. Sua pintura revela o observador arguto e perspicaz da natureza.
Dentre os escritos considerados visionários, Leonardo da Vinci faz uma menção pioneira ao mecanismo da câmara escura, descoberta fundamental para o desenvolvimento posterior da fotografia e do cinema. Leonardo era um experimentador, antes de tudo. E construir um conhecimento sólido o levou a cometer alguns equívocos. Isso levaria a aceitar um Leonardo da Vinci não como gênio acabado. Talvez, ele mesmo tenha explicado sua genialidade de forma simples: ‘‘A sabedoria é filha da experiência’’.

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