Sob a ótica da ética
Novo livro de Umberto Eco disseca temas como a guerra, o facismo, a imprensa e a religiosidade
Fernando Miragaya
Cult Press
ReproduçãoUmberto Eco: críticas estendem-se à Igreja e à imprensa no livro sobre a éticaEm 1983, o italiano Umberto Eco já era um dos intelectuais mais respeitados do mundo por seus trabalhos acadêmicos como ‘‘Tratado Geral da Semiótica’’ e ‘‘Apocalípticos e Integrados’’, quando seu primeiro romance, ‘‘O Nome da Rosa’’, conquistou o público em geral. Quinze anos depois, em ‘‘Cinco Escritos Morais’’, o inquieto professor de Semiótica da Universidade de Bolonha busca o seu lado ensaísta e propõe uma visão sobre a moral que regeu diversos acontecimentos deste século. Em seu novo livro, Eco disseca cinco temas diferentes adotando um único enfoque: a ética. E propõe uma análise sobre fatos que inquietam as sociedades contemporâneas, como guerras, fascismo, imprensa e religiosidade.
O autor alerta para a falta de ética que se espalha pelos mais variados campos da informação. Usando como exemplo a Guerra do Golfo, ele faz uma crítica não só à batalha, mas principalmente às posturas dos intelectuais e pensadores. Para o autor, a chamada inteligentzia, assim como a imprensa na época, se deixou levar por motivos passionais e passou a tentar justificar a guerra usando o mesmo argumento americano: a preocupação com a crueldade do ditador iraquiano Saddam Hussein.
A mesma passionalidade também é denunciada por Eco em relação ao fascismo e à imprensa. Para ele, o que convém no momento nem sempre tem a ver com o certo e errado. Como o fato de a Resistência Italiana a Benito Mussolini na década de 40 ter liberado o país da ditadura fascista não ter sido suficiente para justificar os atos deste movimento pelo simples fato de ser uma guerra de boa-fé.
Tais idéias movidas por paixões, segundo Umberto Eco, acabam comprometendo a ética. Para ele, uma falha imperdoável de pessoas que têm como compromisso criticar os acontecimentos, independentemente do que seria politicamente correto ou não. Para ilustrar as nuances dessa passionalidade, o escritor ressalta que criticar Hitler nos anos 40 era uma obrigação moral, enquanto combater verbalmente o General Franco, da Espanha, nos anos 30, era suspeito. Os dois regimes eram fascistas e totalitários, só que a crítica variava de acordo com a época e com o pensamento dominante.
Esta falta de coerência também é explicitada e criticada pelo autor na imprensa italiana. Segundo ele, o chamado Quarto Poder - a Imprensa - tem como função controlar e criticar os outros três poderes devido ao fato de sua crítica não conter funções repressivas. No entanto, a imprensa italiana estaria criticando apenas o que lhe é conveniente, deixando de lado a principal função de informar a sociedade.
Eco também contesta o pensamento de que a imprensa, por ser um agente vigilante da sociedade, estaria livre de ser questionada e criticada. Em sua concepção, uma imprensa livre de críticas e suspeitas deixaria de lado a sua função informativa e moral devido a tanto poder e imunidade.
O amplo questionamento ético do livro não poupa nem a Igreja. ‘‘Cinco Escritos Morais’’ reproduz uma parte da correspondência entre o escritor e o cardeal Carlo Martini, arcebispo de Milão. Nela, Eco responde a uma indagação feita pelo cardeal sobre suas posições em relação à ética. Mesmo admitindo as diversas religiosidades existentes, o autor defende um sistema moral sem a presença controladora da alma.
Lançado pela Record, Cinco Escritos Morais (128 páginas/R$ 15) é uma embasada explanação ética de Umberto Eco sobre temas contemporâneos.

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