Cannes – Uma sólida, estimulante seleção para ficar na memória dos habituais frequentadores do festival. Recheada de descobertas, confirmações e curiosidades, tudo gravitando ao redor da condição humana. Grande parte do que se viu nesses 12 dias de frenética peregrinação por uma dezena de salas, das 8 da manhã à meia noite, serviu para restaurar a fé na saúde e no vigor do cinema mundial – e aí também deve ser obrigatoriamente incluído o material paralelo, títulos das mostras ‘‘Um Certain Regard’’ e ‘‘Quinzaine des Réalizateurs’’ (a competição reunindo 11 curtas-metragens acontece hoje à tarde). Embora as possibilidades comerciais da maioria dos títulos não tenham exatamente se definido, a contagiante paixão por este diversificado painel em muitos casos levou ao entusiasmo da platéias, o que excepcionalmente autoriza um harmonioso equilíbrio entre críticos e indústria. Assim, dificilmente o júri deverá impor surpresas desagradáveis amanhã à noite, quando for anunciada a premiação.
As derradeiras jornadas também trouxeram boas novas. Da Finlândia, Aki Kaurismaki e ‘‘O Homem Sem Passado’’, espécie de fábula universal generosa e irônica sobre deserdados sociais, é um tipo de cinema das primeiras origens, modesto, direto e clássico ao mesmo tempo, sem medo de ser orgulhoso de uma idéia superior de mundo e de humanidade. Mostrou calibre para a Palma, Prêmio Especial do Júri e direção.
Se não readquiriu sua melhor forma dos tempos de ‘‘Repulsa ao Sexo’’, ‘‘O Bebê de Rosemary’’ e ‘‘Chinatown’’, Roman Polanki também não decepcionou nesta sua volta a Cannes depois de 26 anos, assinando aquele que é, segundo o próprio diretor, seu filme mais pessoal. Com formato narrativo tradicional e austero, ‘‘O Pianista’’ é um drama emocionalmente intenso, mas nunca excessivo ou derramado, com argumento a partir das memórias de Wladyslaw Szpilman, pianista polonês que, a duras penas, sobreviveu à ocupação nazista do gueto de Varsóvia e se tornou o mais renomado concertista de seu país.
O jovem – 32 anos – chinês Jia Zhang-Ke há dois anos entusiasmou Veneza com ‘‘Platform’’, espécie de ‘‘American Graffiti’’ de olhos puxados. Agora ele está de volta com ‘‘Prazeres Desconhecidos’’, também sobre a juventude chinesa neste início de milênio. Numa pequena cidade operária no norte da China, dois amigos na faixa dos 18 não sabem o que fazer de sua juventude num mundo metade em ruínas, metade em construção. Especie de crônica do desencanto, o filme tem qualidades poéticas e doses de humor, mas um ritmo às vezes arrastado. O problema, neste e em casos semelhantes, é como evocar o tédio sem entediar.
Há diretores definitivamente no coração generoso da crítica francesa. Às vezes generoso em demasia. É o caso do canadense David Cronemberg, com filmografia interessante mas irregular. Depois de injetar overdose de adrenalina no festival de 96 com ‘‘Crash’’, ele retorna à competição com ‘‘Spider’’, um filme interessante mas longe de justificar a estridente campanha de bastidores recomendando a Palma de Ouro. ‘‘Spider’’ se inscreve na linha ‘‘psico-thriller’’. É a história de um homem com sério distúrbio mental a partir de uma infância de traumas. Sua reinserção na sociedade vai ficando mais difícil quando ele volta à vizinhança onde, certo dia, ocorreu uma tragédia familiar. Ralph Finnes deve disputar com Jack Nicholson as honras de melhor ator.
Insistentemente anunciado como filme-choque do festival, ‘‘Irreversível’’, embora pudesse estar fora competição, não chega a ser desprezível. Ou irrecuperável, como disse alguém à saida do cinema. Terceiro filme de Gaspar Noé, argentino radicado na França, é radical em sua proposta estética: além de editado de trás para a frente, durante boa parte da narrativa a câmera é arbitrária e alucinante. O plano-sequência de nove minutos e meio que originou a polêmica mostra o personagem de Monica Bellucci – de resto a musa carnal de Cannes 2002 – sendo sodomizada e em seguida espancada por um desconhecido numa passagem subtêrranea de Paris. Amigos, o atual namorado (Vincent Cassel) e o ex (Albert Dupontel) promovem uma jornada de horrores no submundo parisiense em busca do culpado. Não leva nada, além da vasta propaganda – o filme estreou nesta semana nas salas francesas.
Um filme para ser revisto em breve e discutido durante muito tempo, mais por sua audácia técnica e originalidade. Realizado em vídeo digital, ‘‘The Russian Ark’’ foi gravado num único e magnífico plano-sequência de 90 minutos, recorde histórico. O diretor Alexander Sokurov, esteta inveterado, e seu diretor de fotografia, Tilman Buttner – a bordo de sua deslizante Steadycam – recuam três séculos através dos corredores do Museu Hermitage de São Petersburgo, numa viagem que discute arte e história de uma maneira informal. O tradicional Premio Técnico é tido como certo.

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