Sob a luz da simplicidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
Os dias de hoje não estão para singelezas. O mar não está mais para peixe e Caymmis. O mundo fonográfico atual se sedimentou na base do tudo ou nada. Ou seja, às prateleiras chegam simpáticas (isso, simpáticas) bolachinhas platinadas encharcadas de conceito pós-alguma coisa que até podem dra um certo lucro ou produtos frouxos mas calculadamente rentáveis. O meio-termo é proibido, certo? Absolutamente errado. O Sol de Oslo aí está para provar que é perfeitamente possível unir intenções comerciais com singelezas e inquietudes sonoras sem que uma coisa obrigatoriamente interfira na outra.
O Sol de Oslo nada contra maré, sim. Mas não morre na praia como alguns trabalhos mais ou menos similares em que se tenta unir candura, brasilidade e modernidade e cujo resultado quase sempre causa bocejo, perplexidade ou deixa uma carregada nuvem preta de interrogação pairando nos céus.
O grande barato de O Sol de Oslo é não ser pretensioso. Trata-se de um trabalho concebido sob a luz da simplicidade. Um trabalho que radiografa um Brasil que sempre foi musicalmente íntegro e possuidor de maravilhas rítmicas mas que poderosos comandantes da mídia querem, aos poucos, deletar por pura ignorância ou interesses escusos.
Xote, xaxado, galope, toadas, cirandas, cocos e emboladas. Tudo isso tem em O Sol de Oslo. Todos esse estilos receberam um tratamento respeitoso mesmo quando há acréscimos eletrônicos como, por exemplo, em 17 na Cabeça, um coco gravado originalmente por Jackson do Pandeiro. Seja nessa ou nas outras 13 faixas, o que se sente é a cumplicidade explícita estabelecida entre Gil e Marlui.
Por sua vez, Gil está solto, aberto, à vontade dentro de um universo musical bastante usado por ele em douradas épocas e que aos poucos foi sendo substituída, mesmo que competentemente, por um som mais inclinado ao pop-rock. Seu brilho, entretanto, algumas vezes é ofuscado por Marlui Miranda que se demonstra sobretudo uma intérprete de grande quilate. Logo na primeira faixa, Tatá Engenho Novo, é surpreendente o timbre grave, quase masculino que ela imprime no dueto com Gil. Porém, o importante mesmo é que a vozes dos dois se entrelaçam de maneira divina.
Maravilhas escorrem por todo o disco. Todas as faixas são absolutamente deliciosas. Das inéditas, Xote (Gil e Rodolfo Stroeter) e Eu te Dei Meu Ané são apenas dois dos melhores momento de O Sol do Oslo. Claro, que parte dos méritos vai para os arranjos eficazes mesmo quando descabam para o convencional como em Oslodum, em que Gil invoca a manjada percussão baiana para fazer um trocadilho entre o grupo Olodum e a cidade de Oslo.
Querem saber de uma coisa: O Sol de Oslo não é apenas um trabalho inteligente, interessante e comovente. É simplesmente genial. Antológico. Precisa, portanto, desde já ser reverenciado como o melhor disco lançado neste ano.


