- Quem descobriu o Brasil?
A pergunta, que virou chavão, sintetiza os rumos que o ensino da história tomou no Brasil durante gerações. A resposta - clara e seca: Pedro Álvares Cabral - tornou-se inquestionável. Por anos, a fragmentação e a descontextualização de fatos históricos imperaram em função de datas transformadoras, heróis indiscutíveis e mártires honrados.
No ensino médio - equivalente ao 1º, 2º e 3º Colegiais - essas características eram compiladas em macetes para o vestibular. A tendência causou preocupação em muitos professores. Entre os que caminharam em sentido contrário, estão os londrinenses Paulo André Chenso e Agnaldo Kupper. Os esforços da dupla resultaram no livro ‘‘Brasil - História Crítica’’, voltado para o ensino médio mas que pode reciclar os conhecimentos de qualquer interessado.
A idéia é tratar a história sem excessos, evitando o heroísmo e a diluição de acontecimentos em datas específicas. Na obra, os fatos têm continuidade, ganham contexto. Não há exercícios ou macetes para vestibulandos. ‘‘A gente procura tratar a história do Brasil sem rupturas. Normalmente tudo é muito fragmentado, a história do negro acaba em 1888, por exemplo. Nós tentamos dar uma continuidade dentro do processo’’, explica Agnaldo Kupper.
O livro, que saiu com distribuição nacional pela FTD, é um projeto antigo. ‘‘Foi um trabalho de dois anos e meio, um ano e meio só para a preparação do texto. Queremos ensinar de forma contínua para que o estudante visualize a história e perceba que faz parte dela. Também não damos às datas históricas o valor que vinham recebendo, tratando personagens sem idealizá-los demais’’, argumenta.
O livro começa analisando a situação européia antes do descobrimento, detalhando a formação de Portugal. Os acontecimentos são costurados por 22 capítulos, até o início do governo Fernando Henrique Cardoso. ‘‘Ressaltamos o aspecto crítico mas sem grandes ideologias, para passar uma história real, não fantasiosa’’, acrescenta Agnaldo Kupper.
No descobrimento, por exemplo, o texto deixa claro que o Brasil era apenas mais uma colônia de Portugal, que por sinal não se interessou de imediato pelas terras. ‘‘Mostramos também como os índios foram atingidos pelo fato, e como os outros componentes de raça foram se inserindo’’, assegura.
O capítulo sobre Reforma Agrária, por exemplo, revela um assunto já antigo: ‘‘Tentamos explicar para o aluno como a coisa se desenvolveu para chegar onde chegamos’’. O assunto é ressaltado inclusive na capa, elaborada a partir de uma foto concedida por Sebastião Salgado com membros do MST paranaense.
Após o texto principal, há em cada capítulo textos complementares, utilizados para interpretação. Esse material reúne trechos escritos por pessoas ligadas aos assuntos tratados, como Maurício de Nassau, Joaquim Nabuco, Lúcio Costa e editoriais de algumas publicações, entre outros.
‘‘Brasil - História Crítica’’ é também resultado de um trabalho minucioso, que envolveu escolas de pesquisa histórica: ‘‘Foi exaustivo porque pegamos autores de várias fases para fazer uma análise aprofundada’’. O lançamento traz ainda um miniatlas histórico, e pode ser encontrado em livrarias de todo o País.Reprodução
Paulo WolfgangAgnaldo Kupper: ‘‘A gente procura tratar a história do Brasil sem rupturas’’Ranulfo Pedreiro

mockup