Existem verdades que o olhar tristonho do clown consegue dizer e que só o riso sabe interpretar. O absurdo das situações criadas pelos cômicos, de ''A Noite dos Palhaços Mudos'', da Cia. La Mínima, de São Paulo, fala o que está ao alcance de um sorriso - ainda que sarcástico. O espetáculo estreia hoje no 41º Festival Internacional de Londrina (Filo).
Shell de Melhor Ator para Domingos Montagner e Fernando Sampaio, a peça dirigida por Alvaro Assad foi escolhida para a abertura oficial do festival, com reapresentações amanhã e domingo.
Para o diretor, o sucesso da adaptação dos personagens do cartunista Laerte é uma conjunção de fatores. A história original, a trilha sonora criada por Marcelo Pellegrini e a preparação de atores, que durou cinco meses, conduziram ao reconhecimento da crítica. ''O espetáculo prima pelo simples. Costumo dizer que o simples é o contrário do fácil'', afirma o diretor.
Em ''A Noite dos Palhaços Mudos'' essa simplicidade sofisticada se traduz no casamento perfeito da linguagem e o trabalho de palhaços do La Mínima com a pantomima do Centro Teatral e Etc e Tal, de Assad, companhia que já esteve no Filo com o espetáculo ''Victor James''.
Ele conta que o simples na montagem é achar o movimento mínimo para passar o máximo. Foi isso que rendeu o Shell aos dois atores, que na avaliação da comissão julgadora do prêmio, complementaram o trabalho um do outro. ''É difícil realizar essa passagem e fazer com que o público leia o espetáculo como uma HQ. A plateia verá um casamento de linguagem e de duas companhias'', explica Assad.
Numa noite de caça conseguem capturar um palhaço. Na tentativa de matá-lo, arrancam apenas o nariz. Mutilado, ele se desespera. Um outro palhaço aparece para ajudá-lo num ''resgate nasal''.
Assad lembra que Laerte criou os personagens no final da ditadura militar para falar não só do regime, mas também de organizações como a Tradição, Família e Propriedade (TFP).
''É mais fácil destruir o diferente do que ceder em compartilhar com o outro. Laerte faz de uma maneira genial essa discussão, pegando pelo riso'', afirma o diretor sobre o argumento do espetáculo, que tem ainda truques de magia e muitos absurdos para falar da intolerância contemporânea.

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