Aqui quase tudo depende do conhecimento prévio da versão original - ''O Último Beijo'' - dirigida por Gabriele Muccino em 2001 e grande sucesso de público e crítica em toda a Europa. Quem viu o filme italiano vai encontrar neste ''Um Beijo a Mais'' uma mera transposição, praticamente cena por cena. E quem não viu provavelmente sairá do cinema senão satisfeito, pelo menos surpreso pela história que acabou de ver.
Mas é preciso informar a este público que a história narrada em ''Um Beijo a Mais'' (ver a programação de cinema na página 2) não é mérito do diretor Tony Goldwyn ou do hoje muito incensado roteirista Paul Haggis, (''Menina de Ouro'', ''Crash''), neste caso somente cumprindo função de copista. Uma refilmagem não implica na cópia fiel de cenas e diálogos - há personagens inclusive fisicamente idênticos aos do modelo italiano. O que pelo menos se desejaria era alguma originalidade, algo mais de clima, digamos, ''americano'', já que a ação é transferida da Itália para os EUA.
Bem, alguém pode contrapor que o original de Muccino não foi exibido em Londrina, e que à falta dele o similar copiado em Hollywood resolve o problema. Errado. O que é preciso saber é que o original de Muccino, felizmente disponível em DVD na cidade, não foi exibido aqui e na maior parte do mercado nacional por obra da perversidade de um sistema combinado de distribuição/exibição, que privilegia acima de tudo a grossa (valem os dois sentidos) produção feita nos Estados Unidos.
O arquiteto Michael (Zach Braff) tem ótimo emprego, uma bela e grávida namorada, Jenna (Jacinda Barrett), e um grupo de amigos leais. No momento, na iminência dos 30 anos, ele se queixa que está em crise. Aparece de repente um flerte, a estudante Kim (Rachel Bilson), que se transforma em algo mais sério. Na verdade, Michael se comporta mais como um adolescente para quem a maturidade é uma espécie de abstração que ao mesmo tempo seduz e ameaça.
O fio principal da narrativa e seus subtemas colaterais são dispostos à maneira de esquetes, como nessas séries que hoje congestionam canais fechados e abertos da tevê. Tudo muito cheio de atividade, mas formatado de maneira equivocada. Não há em ''Um Beijo a Mais'' a conveniente e necessária carga dramática, e muito cedo o filme se esvazia, se torna volátil, resignado e contemplativo diante de temas tão férteis como crise existencial, paternidade indesejada e desejo sexual mal disfarçado.
Ao contrário de ''O Último Beijo'', este burocrático xerox não contagia, não tem convicção, não é exatamente sincero. Enfim, seus personagens não suam a camisa, não são intensamente vividos, emotivos, divertidos e recomendáveis. Como todos aqueles do filme italiano. É só conferir, na sua locadora.

mockup