Só piano
Luiz Avellar mostra criatividade em composições próprias lançadas em CD instrumental
O piano solo é sempre um redemoinho de introspecção. O contexto intimista acaba tomando contornos melancólicos e não poderia ser diferente em Luiz Avellar em Movimento, novo disco que o pianista está lançando pela Savalla Records.
Avellar é um veterano que já se apresentou com Milton Nascimento, Djavan, Airto Moreira e Flora Purim, além de render homenagens a Caetano Veloso e outros compositores em discos-solo. O músico aparece agora como compositor e desova criatividade.
O CD é um misto de concerto com improvisação jazzística em que o piano reina solitário. Ao contrário do que ocorre com discos nesse formato, Avellar toca sem descambar para o exibicionismo fácil do virtuosismo. Ou seja, é um disco intimista mas com doses de sobriedade, sem viagens alucinadas.
Fui para o estúdio e em dois dias gravei o disco todo. Sei que o momento é meio nublado para esse tipo de música, comenta Avellar, descartando as possibilidades comerciais do álbum. O lançamento traz dez temas instrumentais que passam longe de qualquer tentativa de agradar ao público afoito pelos modismos da indústria fonográfica.
A originalidade já está presente em Pierrot no Frevo, que abre o CD. Ao contrário do tratamento triste que o personagem recebe no Carnaval brasileiro, Avellar optou por deixá-lo mais alegre associando-o com o ritmo pernambucano. O resultado é uma faixa mais animada.
Já em A Bailarina, o erudito fala mais alto em uma melodia consistente inspirada em Chopin. Representa a solidão da bailarina e o lado eremita do artista, é um trabalho artesanal e solitário, explica o músico. O terceiro tema, Erick e Vivian, retrata a infância dos filhos do compositor. Não falta vivacidade.
Em Feliz, há apenas a busca de representação do sentimento e que antecede a entrada de Tango nº 1. Apesar do título, a música é um apanhado de sentimentos evocados pelo gênero musical argentino, e não um tango em si. É uma visão que eu tenho do tango. Gosto muito de música argentina, que passa uma tristeza contemplativa, acentua. A mesma receita vale para Tango nº 2, que fecha o álbum.
Já na faixa seguinte, Segóvia, Cidade e o Castelo, prevalece o arrebatamento de Avellar diante de um show: Estive lá tocando com o Milton e assisti a um show em um castelo. Foi muito bom, saímos calados. Aí compus esta faixa, que é bem soturna.
As influências também se multiplicam. Inspirado em Bill Evans e em compositores brasileiros, surge Valsa. Do Outro Lado do Mundo tem dedicatória. Foi feita para Zizi Possi após gravações com Airto Moreira e Flora Purim em Londres. A nona música, Paisagem de Ipanema também traz uma grande aproximação com a música erudita. Luiz Avellar em Movimento já está nas lojas.(R.P.)
Luiz Avellar em Movimento (Savalla Records). Preço médio: R$ 21,00.





