Só festival de teatro consegue fila de ingressos
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de março de 1999
Simone Mattos 
O minguado público que frequenta o teatro local curitibano durante o ano, seguramente não é o mesmo que vai aos espetáculos do Festival de Teatro de Curitiba. Reunir 90 mil pessoas em 11 dias parece utopia para os diretores e produtores locais, mas é a realidade do festival. Cerca de mil pessoas, diariamente, procuram pelos ingressos. Várias peças já estão com a lotação esgotada.
Segundo a gerente de vendas do Ticket Center, onde estão sendo comercializados os ingressos, Bia Reiner, as filas são longas todos os dias, das 10h às 22h. Ela conta que as peças Alice Através do Espelho e Sofia - O Espetáculo da História da Filosofia, que fazem parte da mostra paralela Fringe, já estão com ingressos esgotados.
Na mostra oficial, onde todos os ingressos custam R$ 20,00, os espetáculos Sublime, Sonho de Uma Noite de Verão e O Crime do Dr. Alvarenga são os mais procurados. Os ingressos para estas peças já estavam quase esgotados no final da semana passada.
Eu queria assistir a alguns espetáculos, como Alice, mas não vou conseguir porque não há mais lugares disponíveis, comentou a médica veterinária Alessandra Quaggio Augusto, enquanto comprava ingressos para Sonho de Uma Noite de Verão. Ela acha o preço dos ingressos acessível.
Durante o resto do ano, Alessandra vai cerca de três vezes ao teatro. Em sua opinião, as pessoas frequentam o festival porque há uma grande concentração de espetáculos, oferecendo várias opções. São muitas companhias de fora, com peças intereressantes, diz.
A educadora Maria Lúcia Sabatella também faz parte do público fiel aos espetáculos do Festival de Teatro de Curitiba. Ela compra, em média, 25 ingressos durante o festival. Sua família, de cinco pessoas, assiste a cerca de cinco espetáculos. Durante o resto do ano, ela não vai do que três vezes aos teatros curitibanos. Acho as peças um pouco repetidas, justifica.
Enquanto aguardava na fila para comprar ingressos para as peças Por Um Novo Incêndio Romântico e Sonho de Uma Noite de Verão, Maria Lúcia elogiou a grade de horários deste ano, que estaria facilitando os que gostam de assistir vários espetáculos do festival.
Os preços, entretanto, não agradaram a educadora, que acha difícil levar toda a família para o teatro. Estes preços não são populares, critica. Ela comenta que há uma grande concentração de peças e que as pessoas gostariam de assistir a todas, o que não se torna possível pelo valor da entrada.
O coordenador do Festival de Teatro de Curitiba, Leandro Knopfholz, explica que quando o evento foi idealizado, há oito anos, o objetivo era atingir exatamente a estas pessoas, que não têm o hábito de ir ao teatro. As que frequentam teatro o ano todo não precisam de incentivo, diz ele.
O sucesso foi absoluto. Conseguimos mostrar para estas pessoas que o teatro pode ser um bom programa, diz Knopfholz. Ele comenta que o curitibano sempre teve como hábito ir ao cinema e não ao teatro. No festival, conseguimos reverter isto.
Ele informa que, atualmente, o fiel público do festival tem idades entre 18 e 40 anos e é de classe média alta. 55% são mulheres e 70% tem curso superior, complementa.
Consciente da situação do teatro paranaense, que enfrenta dificuldades para conquistar o público, Knopfholz acredita que tudo dependa da comunicação utilizada na divulgação.
Ele cita o exemplo da peça Alice Através do Espelho, vista por mais de três mil pessoas na temporada curitibana que cumpriu no ano passado e a primeira a esgotar os ingressos no festival. A divulgação boca-a-boca desta peça foi excelente, diz.
A média de público nas produções locais, no entanto, é bem menor do que esta. O problema é tão grave que vários representantes da classe artística paranaense farão um seminário, logo após o encerramento do Festival de Teatro de Curitiba, para debater o problema. O evento aconterá no Espaço Cênico, dirigido pela atriz Nena Inoue.
Estaremos conversando sobre como convencer o público, conta a produtora e diretora Regina Vogue. Ela esclarece que não tem nada contra o festival e que o acha maravilhoso. Sua companhia, Regina Vogue Produções, está apresentando o espetáculo Uma Professora Muito Maluquinha, na mostra oficial do festival de Teatro.
Ela explica que os profissionais do teatro paranaense querem entender apenas qual é a razão pela qual o público não comparece às montagens locais. O que eles têm contra nós?, pergunta Regina.
Ela afirma que as companhias curitibanas estão saindo da cidade, fazendo grande sucesso fora, enquanto permanecem no esquecimento aqui. Regina comenta que tem ido assistir a muitas peças ótimas, cujas salas estão vazias. Pedimos ao público apenas um pouco mais de carinho com os diretores daqui.


