Paloma Duarte cansou de interpretar mocinhas. Sejam elas as mais densas ou as que pecam pela fragilidade. Com status de atriz de primeiro escalão na Record, ela garante que encarnar a antagonista Doroteia em "Pecado Mortal" foi uma escolha. "Já tinha feito muitos personagens dúbios. De dúbia, ela não tem nada. Ela é má mesmo", conta, aos risos.
Na estreia do autor Carlos Lombardi na emissora, a novela usa o Rio de Janeiro dos anos 1970 como pano de fundo para contar o universo do jogo do bicho e a disputa das famílias envolvidas com a contravenção. Nesse contexto, a personagem funciona como o cérebro da família Ashcar, que rivaliza com o clã de Michelle, interpretado por Luiz Guilherme. "Ela quer tomar o Morro do Pinguim, controlado pelo rival. E não vai sossegar enquanto não conseguir", revela.
Influenciada pelas fortes raízes artísticas na família, Paloma – que é filha de Débora Duarte e neta de Lima Duarte – começou a carreira de atriz muito cedo, aos 14 anos, no seriado "O Grande Pai", exibido pelo SBT. Dois anos mais tarde, estreou na Globo em "Renascer", fazendo seu primeiro papel de destaque. Depois de onze anos na emissora, atuando em importantes novelas como "Terra Nostra" e "Mulheres Apaixonadas", a atriz decidiu mudar de ares. "Estava precisando de novos desafios. Fui para a Record com a missão de levantar uma emissora", valoriza.

Carlos Lombardi frisou muito que você escolheu interpretar a Doroteia em "Pecado Mortal". Sentiu que estava na hora de dar vida a uma vilã?
Me apaixonei na hora que li a sinopse. Na verdade, acredito que a Doroteia que me escolheu. Ela foge completamente das coisas que já fiz e estou muito satisfeita com isso. Acho que a primeira coisa que o público percebe é se o ator está satisfeito com o personagem. E eu não poderia estar mais. É minha primeira vilã, uma coisa que eu nunca tinha feito. Já fiz as heroínas, que são pessoas mais dúbias. Além disso, é incrível fazer, finalmente, um personagem que não chora. (risos)

Você teve alguma inspiração para compor um tipo tão forte?
Tem várias vilãs marcantes que eu amo. Mas tenho dificuldade com essa coisa de buscar inspiração. Às vezes, tenho tanta admiração pela atriz ou pelo personagem em si, que eu travo. O momento da construção, para mim, é muito solitário.

E como se deu a construção da Doroteia?
Eu sempre começo em um processo de fora para dentro. Procuro cheiros, música, faço uma trilha sonora... São pequenos detalhes. Por exemplo, o perfume que uso para gravar é o Guilty, que significa culpa. E também tem umas coisas que eu faço mais baseadas na atuação. Sou muito marcada pelo meu sorriso. A Doroteia não ri, apenas sorri. Eu guardo meus 570 dentes para sorrir nas cenas com o irmão dela, Danilo, interpretado pelo Gustavo Machado. Apenas com ele, ela é mais solta. Aliás, rola uma relação meio incestuosa.

Como assim?
Ela é quase uma ninfomaníaca. Se não for totalmente. Ela não se envolve com ninguém, só com os seus funcionários e empregados. Não diria que ela é uma sedutora, só é rica e pode mandar e desmandar. E é assim que lida com suas relações sexuais. Com o irmão é uma relação com tons de tramas de Nelson Rodrigues.

Você acha que essa relação possa causar algum tipo de repercussão negativa com o público?
Acho que não. Porque não é mútuo, é só da parte dela. A relação dela com o irmão brinca com o incesto. Acho que, por ser um tema muito pesado, não vai chegar a ter nenhuma relação física.

Recentemente, o canal pago Viva reprisou "Renascer" (1993), seu primeiro trabalho em novelas. Qual sua principal lembrança desse trabalho?
O frio na barriga. Foi uma novela especialíssima. Marcou a estreia do Luiz Fernando Carvalho na direção e tinha todo um cuidado. Era um trabalho que permitia aos atores um tempo cênico. Naquela época, o silêncio era bem-vindo na televisão. O espectador tinha tempo de pensar entre uma cena e outra. Agora, não. É tudo imediato, frenético, quase não tem pausa entre a fala de um ator e outro. Mas lembro com muito amor. Até por causa da minha mãe, do meu avô. Como era minha primeira novela, a equipe estava toda do meu lado, na torcida.

Você critica o excesso de ação na dramaturgia, mas agora está no ar em uma novela do Lombardi. Como encara o ritmo de "Pecado Mortal"?
Acho que tudo depende da linguagem. Eu fiz três novelas do Lauro César Muniz porque gosto da linguagem dele. E essa rapidez é um traço muito marcante nas tramas do Lombardi. O que me interessa é o jeito orgânico com que ele cria. E isso não é para qualquer um, não pode ser uma regra estabelecida. É a primeira vez que trabalho com ele. Sou fã e me divirto com a forma com que ele escreve as sequências. É uma das poucas coisas que deixei de dívida quando saí da Globo.

Em sete anos de Record, este é seu quinto trabalho na emissora. Como você acha que sua carreira vai se desenhar daqui para frente?
Eu tenho 27 anos de carreira. Não sei qual é a brincadeira que está me esperando. E eu preciso estar apaixonada pelo meu ofício. A novela sempre foi minha maior tara como atriz. Gosto de gravar 30 cenas por dia. Tenho o vício da adrenalina nessa indústria, mas meu contrato vai até 2015. E, pode ser que, no fim do meu contrato, me proponham alguma coisa que eu não fiz. Até lá, só penso em entrar em cena e fazer o meu trabalho. Depois, não sei. É uma possibilidade priorizar outras coisas.

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