Preferida de vários mestres da guitarra, a Fender Stratocaster completa 50 anos consagrando-se o modelo de guitarra elétrica mais famoso do mundo.
Ninguém diz que a senhora Fender Stratocaster tem hoje 50 anos. Firme em sua infidelidade conjugal, fica embriagada nas mãos de Lou Reed, suave ao lado de Mark Knopfler, nostálgica perto dos Strokes e atrevida com o Sonic Youth. A lista de seus galanteadores vai longe e, com eles, o modelo de guitarra criada por Leo Fender em 1954 escreve uma história que altera e guia comportamentos. Desde os anos 60, a maioria dos músicos tocava guitarras Fender - Os Beatles, Keith Richards, Jimmy Hendrix, o Who. Nos anos 70, Eric Clapton, e incontáveis outros gravaram o rugido Fender ainda mais profundamente na consciência coletiva. Todo músico sabe que as guitarras Fender são os instrumentos elétricos mais aclamados e imitados do mundo.
K&F fabricou guitarras elétricas e amplificadores em um barracão nos fundos da loja de rádios de Fender na região central de Fullerton, Califórnia. Kauffmann uma vez disse, ''Sim, eu ajudei Leo a começar um negócio de US$13 milhões!''
Leo Fender queria um instrumento infalível que não perdesse em agudos, mas que tivesse graves mais poderosos que a estridente Telecaster, modelo até então hegemônico. Que falasse baixo, gritasse ou chorasse sem perder o timbre. Enfim, uma usina de notas capaz de fazer o músico que a tocasse esquecer da existência de sua arqui-rival Gibson Les Paul.
A história da Stratocaster não se passa só no paraíso. Fender ficou doente em 1965 e, acredita-se, pensou seriamente que iria morrer. Só isso pode explicar a asneira de ter vendido a empresa para o grupo CBS no momento em que ela liderava o mercado. O resultado foi a queda na qualidade dos instrumentos. Os usados, fabricados antes de 1965, viraram relíquias de até US$ 20 mil. A CBS vendeu a empresa para investidores em 85 e Fender morreu seis anos depois tranquilo, orgulhoso da filha que chorava e gritava sem perder a pose.
A fusão de jazz, country, rock e blues alcançou novos níveis e encontrou uma base comum no som de Leo. Os instrumentos Fender nunca estiveram restritos a qualquer estilo particular de música, bandas New Wave e Punk também foram ''fenderizadas''. Colecionadores apreciaram como os corpos maciços mudaram a história da música. Admiradas e tocadas no mundo todo, as guitarras Fender contribuíram para a globalização dos valores culturais ocidentais, especialmente nos países comunistas do leste Europeu.
As cinco décadas da Fender Strato inspiraram o jornalista Tom Wheeler a escrever o livro ''The Stratocaster Chronicles'' com muitas fotos e depoimentos de designers, executivos de empresas e músicos sobre o modelo de instrumento mais popular da história. Sem previsão para chegar ao Brasil, o livro é sobre o que significou o lançamento de um instrumento com nome de foguete para aqueles anos em que a country music branca e o blues negro começavam a rabiscar a música que mudaria o planeta. A Fender Company ainda molda o modo como o mundo toca e ouve música, e torna melhor a vida dos guitarristas.

Feliz aniversário!

''Cada pessoa tem um motivo diferente para pegar e tocar uma guitarra. Para alguns, trata-se de uma compulsão absoluta para expressar e mostrar seu dom divino; para outros, é simplesmente um desejo de imitar seus heróis. Para mim, isto foi, e continua sendo, uma combinação de ambos. Na busca deste objetivo quase impossível, eu experimentei praticamente quase todas as guitarras que já foram feitas, e invariavelmente voltei para a Stratocaster. É algo como voltar para casa. Ela é furiosa e ainda assim agradável, crua e no entanto pura. Ela é quase tão perfeita quanto qualquer guitarra, aceite meu conselho, pegue uma, ligue-a e toque. Acho que você vai perceber o que quero dizer.
Sinceramente seu,

Eric Clapton''
(Declaração feita pelo músico em 1987)

Kiko Jozzolino é guitarrista de blues e colaborador da Folha.

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