Smith faz discussão irreverente sobre o Paraíso
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terça-feira, 28 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 28 (AE) - Kevin Smith acaba de batizar sua filha na fé católica. Ele teve o que chama de sólida formação religiosa: ia à missa, comungava, cantava no coro da igreja. Smith não renegou suas crenças, mas nos últimos tempos vem sendo acusado de cometer heresia. Tudo por causa de um filme, "Dogma", que estréia no Brasil no dia 14, numa distribuição da Lumire.
Smith conversa com a reportagem da AGÊNCIA ESTADO pelo telefone. Não se surpreende ao saber que a organização Tradição, Família e Propriedade, a TFP, faz campanha contra o filme no País e o acusa de profanação, principalmente por fazer a pop star Alanis Morissette interpretar o papel de Deus. "Nos EUA aconteceu a mesma coisa", conta. "O reacionarismo é igual em todo o mundo; falaram muito mal do filme antes de vê-lo; depois, a campanha serenou."
Ele gostaria que os integrantes da TFP vissem o filme antes de manifestar-se. Garante que não é um filme blasfemo, embora proponha uma discussão um tanto irreverente sobre o Paraíso, por meio da figura dos anjos caídos. Jura que, embora enfrentando tabus como a natureza de Deus e a virgindade de Maria, sua "mensagem" (ele diz que não gosta da palavra) é totalmente a favor da fé e contra a blasfêmia. Smith escreveu o roteiro em 94, esperava fazer o filme dois anos depois. Teve de esperar mais três. Acha que foi benéfico para o projeto. Com "O Balconista" e "Procura-se Amy", apesar do percalço de "Barrados no Shopping", ele tem certeza que conseguiu evoluir em sua arte. "Sei mais sobre roteiro, sobre direção de atores e a parte técnica; o filme beneficiou-se disso."
Destaca a qualidade dos diálogos. "Hoje escrevo muito melhor, com certeza." O roteiro não exigiu muita preparação. Por sua formação religiosa e conhecimento da Bíblia, ele nem precisou pesquisar muito. "Sabia o que dizer e a quais fontes recorrer." O filme atualiza a eterna luta do Bem e do Mal usando Ben Affleck e Matt Damon como anjos caídos e Linda Fiorentino como uma descendente da linhagem de Cristo. Kevin define-se como um homem religioso. Diz que está querendo aproximar o Evangelho dos jovens. "Deus sempre foi muito importante em minha vida, é a força que nos impulsiona." Só que
por causa disso, ele não acha que a teologia deva ser exclusividade da hierarquia da Igreja Católica. Quer ter o direito de fazer sua interpretação da Bíblia e do próprio conceito de Deus.
"Fui muito criticado por colocar Anison (Morissette) no papel de Deus." Acha que é um preconceito típico de uma sociedade machista, que não hesita em definir como falocêntrica. "Por que identificar Deus como uma figura masculina? Só por que são os homens que controlam a sociedade?" Para ele, Deus está além de toda compreensão, além dos sexos. E pode ser uma mulher, sim. Mas por que Anison? Aí reconhece que se trata de uma ironia: "As stars da música pop são os deuses da nossa época."
"Dogma" está chegando aos cinemas quase simultaneamente com "O Fim dos Dias" e "Stigmata". O primeiro é uma típica fantasia hollywoodiana em que Arnold Schwarzenegger enfrenta e vence (ao custo da própria vida) o Diabo. O segundo, um pouco mais interessante, mostra um padre que luta para preservar uma mulher da cúpula da Igreja Católica, que quer destruí-la por que ela traz uma nova mensagem do Evangelho. A personagem de Patricia Arquette diz que Deus está em toda parte e no interior das pessoas. "Levanta uma pedra e lá estou; parta uma madeira e me encontrará." O homem não precisa da mediação da Igreja para comunicar-se com Deus.
O diretor de "Dogma" não deixa de concordar com isso. Diz que é uma pena esse barulho por causa do filme. "O papa e eu temos as mesmas crenças em Deus, Jesus e na Virgem Maria; estamos no mesmo lado, a diferença está na maneira política como nos apropriamos dos fatos." Ele acha que o papa está preocupado demais com a forma como as mulheres usam seus corpos. Não é uma discussão que lhe interesse. De qualquer maneira, descarta a aproximação de "Dogma" com essa tendência hollywoodiana de filmes espetaculares sobre o fim dos dias.
Mesmo assim, arrisca uma interpretação. "O fim do milênio nos confronta com nossas expectativas em relação a uma nova era", diz. "Durante séculos o homem foi preparado para aceitar o ano 2000 como a data final da humanidade; é natural que, chegando perto, a insegurança e a ansiedade se manifestem e inspirem o cinema e os cineastas." Mas ele considera só uma casualidade o fato de "Dogma" ser contemporâneo desses filmes. "O meu é assumidamente mais crítico." Ao tratar do tema dos anjos caídos, ele talvez autorize uma certa aproximação com o anticlericalismo de um gênio como Luis Buñuel. "Conheço Buñuel e admiro muitos de seus filmes, embora pertençam a uma cultura que não é a minha, mas se houve alguma influência sobre o meu trabalho foi de Martin Scorsese." Admite que viu muitas vezes "A Última Tentação de Cristo". Considera fascinante a humanização, verdadeira desmistificação, da figura sagrada.
Quis fazer algo parecido em "Dogma". Por sua formação (leu muito gibi, viu muita TV), reconhece que há um lado muito forte de cartum no filme. "Tanto isso é verdade que "Dogma" será transformado numa série para TV." É o projeto no qual trabalha agora. Em relação ao filme, não poupa elogios a Ben Affleck ("um amigo, presença quase constante em meus filmes"), nem a Salma Hayeck ("passei momentos muito divertidos com ela no set"), muito menos em relação à empresa produtora Miramax ("é uma grande parceira, fornece os meios e ainda te dá liberdade para trabalhar").


