São Paulo, 03 (AE) - Declaradamente apaixonado pela literatura e pela música brasileiras, o escritor chileno Antonio Skármeta está de volta ao País. O autor do romance "Ardente Paciência", que deu origem ao filme "O Carteiro e o Poeta" (indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 1996 e vencedor na trilha sonora) chegou no início da semana passada ao Rio. Fica na cidade até terça-feira gravando uma série de entrevistas para "A Torre de Papel", novo programa que apresentará a partir do dia 2 no canal People + Arts (Net e TVA).
Bem-humorado, Skármeta anunciou que vai adaptar para o cinema mais um de seus livros. Há poucas semanas, uma produtora norte-americana comprou os direitos de "A Velocidade do Amor" (cujo título original é Match Ball), romance publicado no Brasil no ano passado. "Será uma co-produção dos Estados Unidos, Alemanha e Espanha", informa. "A pedido dos produtores, eu mesmo começo a escrever o roteiro no ano que vem".
O próximo romance do escritor chileno será lançado no dia 14, na Espanha. "La Boda del Poeta" terá lançamento grandioso em Madri e já está com os direitos vendidos para a Itália. Não há previsão de lançamento no Brasil. De acordo com o escritor, "La Boda del Poeta" é um romance "muito latino-americano, com sensibilidade e humor". Diz que a obra tem características cinematográficas em razão da maneira como é montada. "É composta em cenas", explica. "Mas trata-se, ao mesmo tempo, de uma história européia porque se passa na Europa em 1913, um ano antes da 1.ª Guerra", adianta.
O programa de TV "A Torre de Papel", explica o escritor, tem o objetivo de captar momentos da cultura, e da literatura em particular, de vários países. "Tem um caráter internacional, por isso passaremos pelo Brasil, México, Argentina, Portugal e Espanha", diz. Skármeta escolheu produzir dois programas no Brasil, um sobre humor e outro sobre música. No roteiro do primeiro programa, o escritor vai apresentar-se como uma pessoa amarga, mal-humorada, ressentida pela violência espalhada pelo mundo, incapaz de sorrir, mas que repensa seu ponto de vista a partir de uma visita ao Brasil.
"Apesar da miséria e de uma realidade áspera e violenta
o povo brasileiro sobrevive com alegria e humor e sua literatura é um reflexo disso", diz o texto de abertura do programa. Para falar de humor na literatura, Skármeta vai entrevistar João Ubaldo Ribeiro e Millôr Fernandes, a quem descreve como um dos expoentes da crônica. Segundo o roteiro do programa, a crônica é um gênero literário tipicamente brasileiro
que se mistura com o jornalismo ao tratar de temas do dia-a-dia das pessoas. Para o escritor o fato de a pobreza reverter-se em humor não constitui um paradoxo. "Sempre que há situações críticas o humor é expressado por meio da ironia", acredita. "Interessa-me entender a sensibilidade, os laços de ternura, a simpatia e a graça que têm os brasileiros". No mesmo programa, o escritor vai encontrar-se com o cineasta Walter Salles, diretor de "Central do Brasil", indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Música - É evidente o encantamento do escritor pela música brasileira, pelo ritmo até, mas principalmente pelo que define como uma habilidade peculiar dos brasileiros de fazer "poesia cantada". Na abertura desse segundo programa, o escritor exalta o fato de a música brasileira conseguir apresentar à massa a poesia que naturalmente é restrita a um pequeno público de bibliotecas.
"No Brasil há uma relação intensa entre poesia e canção popular que não se dá maciçamente em outro país", analisa. "Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, João Bosco e muitos outros têm versos de enorme qualidade e que, por meio da música, chegam a um público enorme", continua. "É um fenômeno muito interessante". Na quarta-feira, Skámeta encontrou-se com Gil. Fez uma entrevista "encantadora", na qual o compositor falou sobre a canção "Metáfora". "Creio que essa canção vale como um tratado estético sobre o sentido da poesia", avalia o escritor, empolgado.
Ainda é um desejo, mas Skármera espera encontrar-se com Chico Buarque, a quem conheceu há dois anos no Rio. Se são amigos? "Gostaria que ele me considerasse, porque sou um admirador muito grande". Tão grande que vale repetir a história contada há alguns anos pelo próprio Skármeta. "Estava no exílio na Alemanha e um dos pontos que me aproximaram de minha mulher foi o fato de ela ter quase todos os seus discos", contou Skármeta à mesa de um bar carioca tomando caipirinha com Chico. O Rio inspirou o escritor a escrever um pequeno poema para a cidade: "Este Redentor que mira arriba arropado, por suerte no reprime mis deseos ni pecados".

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