SINTONIA FINA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Antônio Mariano Júnior 
Microfone em riste, lábios carnudos. Close. Proximidades aparentemente fálicas? Não!. Ao objeto, sua finalidade: coisa. Os lábios grossos colam e descolam-se para emitir uma bela canção. À capella. A voz tem olhos e são imensos e tímidos e buscam algum ponto para apoiar-se. Tudo em preto-e-branco.
- Da voz da aparente figura frágil, um pouco incomodada diante das câmeras, muitas músicas. Canta tão lindamente ''Soneto''.
- ''De que romance antigo me roubaste/ com que raio de luz me iluminaste/ quando eu estava bem morta de medo''. (Chico Buarque)
- Nara Leão. Tímida. Musa. ''A Banda'', com a qual consagrou-se no Festival da Record, em 1966. Voláteis adjetivos.Tímida sim, porém com incisiva doçura ao emitir opiniões. Musa sim, da Bossa Nova, mas daí resumi-la a um isso é leviandade. Musa é a irmã! Nara é um totem. Cantora de ''A Banda'', é pouco.
- Nara criou a própria dialética, isso sim!
- Os mistérios de Nara... Através de um DVD, que sai pela Biscoito Fino, é possível ter uma idéia boa, senão razoável, da moça de Copacabana que abrigou a Bossa Nova em seu apartamento e que também curvou o pescoço para ver e ouvir e cantar o morro. A Tropicália. Cartola. Da Viola. Lamartine. Roberto Carlos. Fagner. Muitos.
- Gravado em 1973, em película, o único audiovisual inteiro com Nara foi registrado originalmente para o programa ''Ensaio'' (TV Cultura), de Fernando Faro, a quem cabe a apresentação dessa capixaba, carioca por adoção. Junto com Roberto Menescal aprendeu a tocar violão pelo método Capadócio, de Patrício Teixeira - o mesmo com o qual Jorge Benjor (antes Ben) se formatou.
- Habilmente, Nara se acompanha ao violão e canta canções da Bossa Nova (''Desafinado'', ''Primavera''), de Chico (''Com açúcar, Com Afeto'', feita especialmente para ela), Ary Barroso (''Camisa Amarela''), Dorival Caymmi (''Morena do Mar''), entre outros. Mostra virtuosismo em ''Berimbau'' (Baden Powell-Vinicius de Moraes) e deixa quase claro ''Insensatez'' é sua preferida até então.
- Com leveza e firmeza de propósitos vai respondendo às perguntas em off, uma das características do programa. Surpreende. A moça frágil, que muitas vezes juntava os joelhos para tocar violão, é um assombro nas declarações.
- ''Eu descobri um outro lado da vida que não era só um sorriso, a flor e o amor e fiquei impressionada com coisas que não sabia. Eu descobri que havia fome, que havia morro, que havia pessoas pobres''. O barquinho ainda vai, a tardinha cai. Ela viu. Não se contentou só com lírica paisagem. Juntou-se a Zé Keti e João 'Carcará' do Valle no ''Opinião'', espetáculo de resistência aos burros que relinchavam no poder. Diz ela: ''Já que havia descoberto o outro lado da vida, queria denunciar'', diz ela em determinado trecho.
- Bateu de frente com os predadores da ditadura - fdps mesmos!. Quase foi comida. Foi morar por dois anos em Paris com o marido, o cineasta Cacá Diegues ''onde cozinhava, lavava fralda, varria a casa''. A imagem de musa espatifa-se no chão. ''Você faz força para fazer sucesso e depois que faz acha chato. Comigo também aconteceu''. Orra!
- A importância de Nara Leão para a música brasileira é incomensurável. Ela agregava valores. Impunha valores man-sa-men-te... Buscava valores. Foi ela a responsável direta por valores como Maria Bethânia, por exemplo, que por sua sugestão a substituiu no espetáculo ''Opinião''. Deu no que deu...
- Até hoje meu pai ouve 'Narinha' com muita reverência. E todas as vezes lastima a perda da sua musa... Antônio, meu pai, é tão bonito ouvi-lo cantarolando ''14 anos''...
- O Brasil cospe em seus ícones.
- Estátuas à disposição de pombos.
- ''Podem me prender, podem me bater, podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião'' ( Zé Kéti)
- Para quê destrinchar o DVD? Para bom entendedor, um risco quer dizer Francisco...
- Nara Lofego Leão (1942-1989). Um DVD. Vinte discos mais ou menos. Repertório isento de preconceitos. Nem queria ser artista. Sonhava em ser montadora de filmes, fazer gravuras.
- Fez história.
Um tiquinho assim de voz. E no entanto muita. Faz falta. Deixou como legado a integridade artística. 47 anos apenas. O porquê da matéria descolada de forma tão feroz e precocemente? As tais linhas tortas de Deus...Metafísica indecorosa, máxima em desalinho.
- Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí aproveitar minha utilidade humana e amar azuis caminhos. UM ou outros que ocupem-se em preencher minhas tortuosas linhas. Com garrancho, por favor!!!!
- Nara: ''Até hoje eu não sei o que vou fazer na vida, ainda não sei''.
- Vai ser eterna.
- Eterna!!!!!
EU RECOMENDO
''Imitação da Vida'', Maria Bethânia (1997), EMI Music. O que acontece quando uma das maiores intérpretes brasileiras resolve declamar o maior escritor da língua portuguesa e cantar canções dos mais talentosos compositores da nossa música? Um disco duplo que beira a perfeição. A voz potente de Maria Bethânia entra pelos sete buracos da nossa cabeça e faz-nos compreender (e indagar) as tantas facetas do ser humano. Canções que vão de Orestes Barbosa a Chico César entremeadas por textos de Fernando Pessoa. O título, ''Imitação da Vida'', refere-se à canção do compositor baiano Batatinha e não poderia ser mais adequado para uma intérprete que atinge o ser de atriz - ela nos traz algumas epifanias despindo-nos diante das paixões, da saudade, dos dramas existenciais. Os CDs são o registro do show dirigido e roteirizado pelo profundo Fauzi Arap. A obra é um mergulho. Ao final da audição, resta-nos o desejo de ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos.
(Renato Forin Jr.,jornalista que prepara um livro-reportagem sobre ''Rosa dos Ventos'', histórico espetáculo de Maria Bethânia, de 71)
Sugestões e contatos com a coluna através do e-mail [email protected]


