‘‘A vida sem música é simplesmente um erro,
uma tarefa cansativa, um exílio.’’
(Nietzsche)


- Entra rasgando a cena. Olhos enigmáticos e rebolados. De cara, manda um recado político através de ''Notícias do Brasil'' (Milton Nascimento- Fernando Brant).

- ''Aqui vive um povo que merece mais respeito, sabe?/ Belo é o povo, como é belo todo o amor/ Aqui vive um povo que cultiva a qualidade/ ser mais sábio que quem o quer governar''.

- Pra bom entendedor, um risco quer dizer Francisco...

- É a primeira faixa do DVD ''Vagabundo ao Vivo'', que gerou também um disco no mesmo formato. Trazem algumas canções não incluídas no álbum de estúdio, aclamado pela Associação Paulista de Críticos de Arte como o melhor de 2004.

- Ajuda mútua. Ney Matogrosso, que vinha de trabalhos intimistas, alguns com fortes contornos burocráticos, rejuvenece-se. A batucada de Pedro Luís e a Parede ganhou, enfim, amplificou-se com o aval de um mito da MPB. Tudo é bom, até mesmo a inclusão de músicas manjadas como ''Balada do Louco''.

- Disco e DVD gravados ao vivo na casa de espetáculos Olympia (SP), no dia 15 de julho de 2005. Sai pela Universal Music. Making of traz as entrevistas de praxe. Aquelas coisas. De interessante: o projeto, conforme Pedro Luís, poderia chamar-se ''Jesus''. Assim, para cutucar mesmo. Ficou ''Vagabundo''. Hum!

- Ney se sobressai em cena. Rebola, vira os olhos, desenha-se em gestos sensuais. O DVD traz Ney soltando maravilhosamente a franga. Chegam a ser eróticas algumas de suas performances. Mão nos mamilos... Provocador, não vulgar. Delicioso!

- Ney poderia ter se bastado como ícone gay, um produto para consumo rápido, comercial. Uma aliteração visual. Mas voltou seu canto para a qualidade e variedade. Um homem bem resolvido. Que desafiou convenções e venceu.

- Ney é a Carmen Miranda que todos nós, homens, gostaríamos de ser.



A volta da 'maldita'


O repertório de palavrões é tão bom quanto suas frases de efeito. Angela Ro Ro, que abandonou o ''kit suicídio'' (álcool, drogas, cigarro e até bolinho de bacalhau), está em estúdio gravando um projeto autoral, que deve sair em setembro pela Indie Records. Vai rolar também o primeiro DVD, para o próximo ano. Ro Ro tava fazendo falta. Dezenas de quilos a menos e muitas ''pelancas'' extraídas reutilizadas, segundo ela, na fabricação de tamborins para as escolas de sambas do carnaval carioca ela esteve ano passado no Cabaré do Filo. Foi um sucesso. No final reverenciou até pomba gira. Entre folclores, é muito mais prazeroso ficar com as verdades de Ro Ro.


Requinte
Onze anos depois, Leny Andrade e o violonista Romero Lubambo, brasileiro radicado nos EUA, se reecontram em ‘‘Lua do Arpoador’’ (Biscoito Fino). Bossa Nova e jazz com um repertório de 13 músicas, quatro inéditas. Releituras sensacionais. Leny, lá fora conhecida como ‘‘The first brazilian jazz singer’’ (a primeira cantora brasileira de jazz), impressiona com seu canto de porte. Lubambo mostra virtuosismo sem ânsias melódicas. Sintonia. Ao contrário de ‘‘Coisa Fina’’(1994), ‘‘Lua do Arpoador’’ tem um clima mais denso. Requintadamente denso.

ANTENA

- Chamam-se Daillyellen e Katyellen e são de Maringá. Vão lançar por esses dias um disco pela Indie Records amoitadas no codinome artístico ''Ellens''. A assesssoria de imprensa diz que o disco traz ''um discurso amoroso com atitudes''. Só pelo menino da tábua!

- Vamos, venhamos e convenhamos: Marisa Monte e seu ''Infinito Particular'' provocam estranhas vontades. Como a de tomar fanta uva quente comendo feijoada em lata...

- Paula Lima, dona de esculturais cabelos e voz e porte de diva black, deve lançar novo disco em setembro. Mulherão. Canto eficaz.

- ''Só peço a você um favor, se puder: não me esqueça num canto qualquer'' (Toquinho- Vinicius de Moraes). Para mentes em desalinho, ai!


EU RECOMENDO

  Dois na Bossa - Vol.1 (1965) e Dois na Bossa - Vol.2 (1966), com Elis Regina e Jair Rodrigues. São relíquias da MPB. Gosto por dois motivos. Primeiro, porque são trabalhos inicias da Elis, para mim um ídolo. Segundo, por um mesclar Bossa Nova e o autêntico samba brasileiro. Eu tenho os discos em vinil, gosto porque mantêm a autenticidade do projeto. É maravilhoso o entrosamento dos dois. Elis mostra um jogo de cintura incrível para acompanhar Jair, que é um sambista nato. Eu destaco ‘‘Arrastão’’ (Edu Lobo - Vinicius de Moraes) e ‘‘Menino das Laranjas (Theo de Barros), no volume 1; ‘‘Louvação’’ (Gilberto Gil- Torquato Neto) e ‘‘Canto de Ossanha’’ (Baden Powell- Vinicius de Moraes), no volume 2, entre outras. Quem gosta da boa música brasileira não pode deixar de ouvir.
(Marisa Olavo, empresária londrinense)

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