Sinta-se em casa e aproveite cenários e sabores
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quarta-feira, 11 de julho de 2001
Maria Amélia Rocha Lopes Agência Estado 
Comer, beber, passear, matar a saudade, não se sabe bem do quê. Mas cada rua estreita, cada ladeira, cada casario, pode parecer extremamente familiar para o brasileiro, mesmo que jamais tenha posto os pés na cidade do Porto, hoje Patrimônio da Humanidade. Não é difícil compreender. Por maiores que sejam hoje as diferenças culturais, Portugal é a nossa origem. A cidade tornou-se neste ano, junto com Roterdã, na Holanda, Capital Européia da Cultura.
Uma razão a mais para ser visitada. De preferência a bordo de uma van alugada, com motorista, porque é impossível visitar o Porto sem percorrer a rota do vinho que faz a fama da região. Conhecê-la é, sobretudo, reencontrar a história e esquecer a balança. Significa visitar quintas (fazendas) belíssimas, provar a comida mais tradicional, saborear queijos e não resistir aos pães e doces que lhe são oferecidos, sempre acompanhados de uma taça do vinho.
A bebida, vão dizendo, combina com o linguadinho, o arroz de malandro (bem soltinho), o toucinho do céu, a broa amarela, o pão de favaios... E não há como negar. Quase uma contradição: doce, macio e perfumado, o vinho do Porto guarda uma tradição de enorme dificuldade no cultivo das uvas, no preparo do solo e na colheita. Ele vem da região do Douro, rio que tem sua nascente no alto da Sierra de Urbion, no interior da Espanha, e cruza Portugal de leste a oeste. A área demarcada começa 96 quilômetros a leste da cidade do Porto e estende-se por 107 km de Barqueiros até Mazouco, na fronteira espanhola.
O ponto mais largo da região tem apenas 25 km e as vinhas são plantadas em 40 mil dos 250 mil hectares de área total, nas encostas em declive que se erguem sobre o rio. O solo do Douro é dominado por duras pedras de xisto, rodeado de granito. Perto de 95% de todo o vinho é cultivado nele. Como existe apenas uma camada muito fina de terra argilosa, as vinhas são plantadas partindo-se a pedra até uma profundidade de um metro. Depois disso, as fissuras no xisto permitem que as raízes cheguem até 21 metros em busca de água.
Ocorreu ali o que os portugueses chamam de transformação de uma área deserta em um jardim suspenso. Na região, cultivam-se mais de 30 castas tintas diferentes, mas cinco delas são consideradas de excepcional qualidade: touriga nacional, tinta roriz, tinta barroca, tinto cão e touriga francesa (que, apesar do nome, é exclusivamente do Douro).
A viagem começa na vizinha Peso da Régua, o centro administrativo do vinho do Porto. Lá está a Associação de Aderentes, centralizada no Armazém 43, um galpão imenso onde os vitivinicultores deixam seus vinhos para estagiar em tonéis de carvalho. A Região Demarcada do Douro divide-se em três: Baixo Corgo (bem perto do Porto, e com cidades como Vila Real, Régua e Lamego), Cima Corgo (Favaio, Pinhão) e Douro superior (Moncorvo).
Em todas o visitante terá contato com o turismo rural, numa viagem no túnel do tempo. Nas quintas mais antigas ainda se usam os lagares para a pisa das uvas quando os homens fazem quase uma dança de movimentos concatenados , os tonéis de carvalho e tudo cheira a tradição, num cativante envolvimento pessoal no trato com o vinho.
O Douro, de 8 de setembro a 22 de outubro, é tomado pelas Festas das Vindimas, com concertos, bailes, pisa de uvas e missa de benção do vinho novo. É a melhor época para fazer a rota. É também quando o Armazem 43 vira um ponto de referência da festa. Ali ocorrem os Laboratórios de Sabores, em sessões orientadas por especialistas. Na parte da manhã a degustação inclui queijos, vinhos e pães. À tarde, com queijos de ovelha e cabra ou doces como toucinho do céu, queijadas de murça, beijinhos de amêndoa de Torre de Moncorvo, barquinhos e rabelos.
Entre uma degustação e outra no Armazem 43, cabem visitas a pelo menos duas quintas situadas no Baixo Corgo. Das cerca de 85 mil vinhas no Douro, quase 2 mil podem ser chamadas de quintas, cujos domínios devem ter, além das vinhas, a casa principal, a dos caseiros, uma adega ou armazém e, dependendo da dimensão, um local para receber os trabalhadores sazonais.
Na Quinta da Casa Amarela, da família Regueiro desde 1875, os proprietários orgulham-se de manter a tradição. Ali, de oito a dez homens fazem a pisa das uvas porque acreditam que essa é a forma de dar mais qualidade ao vinho. Faz parte da nossa história. E é interessante que o turista possa ver esse processo que, infelizmente, está acabando, diz Laura Regueiro.
O roteiro do visitante inclui conhecer todo o processo, a casa, comer, fazer minicursos de degustação e, finalmente, a prova. No lagar da Quinta da Pacheca, são 14 homens, em fila, que fazem a pisa, entre brincadeiras e cantorias de influência celta. Essa é uma das mais conhecidas propriedades do Douro. Um documento datado de abril de 1738 faz referência ao local, de dona Mariana Pacheca Pereira.
Em 1903, foi comprada por d. José Freire de Serpa Leitão Pimentel e permanece até hoje na família. A história registra que foi a primeira no Douro a engarrafar sua própria produção. Um jantar por lá é inesquecível. Mas não vá com muita ansiedade aos pães e queijos de entrada, oferecidos na antiga adega. O jantar, na residência principal, será tão ou mais farto.
O tinto que leva o nome da casa acompanha bem o bacalhau assado e o cabrito de leite assado em forno de lenha. Com os pés mais no futuro, a Quinta de La Rosa, no Cima Corgo, já tem quase tudo industrializado e é uma boa parada para comprar desde os vinhos Vintage 1990 ao azeite de oliva produzido lá.


