Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Flauta, cavaquinho e violão. O trio reuniria o necessário para a interpretação do choro carioca de acordo com um de seus principais compositores, Joaquim Callado. A constatação ocorreu há mais de um século, quando o estilo ainda se configurava. O tempo passou, Callado caiu no esquecimento – com exceção de ‘‘Flor Amorosa’’, sua obra é desconhecida – mas o choro sobreviveu e se transformou em um dos gêneros mais importantes da música brasileira.
Agora, finalmente, o choro ganhou a primeira gravadora especializada em quase cem anos de mercado fonográfico no País. A Acari Records, do Rio de Janeiro, entrou em ação em março com uma homepage na Internet (www.acari.com.br) e três títulos. Entre eles, um disco dedicado à obra de Callado, reunida pela primeira vez em CD, contornando um furo histórico: ‘‘Leonardo Miranda toca Callado’’. Os outros trabalhos são de Luciana Rabello e Álvaro Carrilho.
A Acari surgiu como um estúdio de gravação especial para a música acústica, iniciado em 1997. Com o tempo, a idéia se desenvolveu em gravadora. ‘‘O mercado é fechado, e o choro não desperta o interesse das gravadoras. A novidade da Acari é ser voltada exclusivamente para o choro. E o resultado foi surpreendente. Nos dois primeiros dias em que a homepage foi ao ar, tivemos 45 mil visitantes. As pessoas estão ávidas e de saco cheio porque a massificação hoje na música é muito grande’’, comenta Luciana Rabello, criadora da Acari Records ao lado de Mauricio Carrilho e João Carlos Carino.
A idéia anda na contramão de posicionamentos excessivamente queixosos que pipocam no meio e demonstra que, sem iniciativa, o fantasma do isolamento vai continuar assombrando a música não comercial. Daí o lema ‘‘choro sem lamentações’’, adotado pela Acari. ‘‘Não levantamos bandeira contra ninguém, apenas contra a mesmice e o fato de a música ter se tornado um produto de consumo. No mais, só estamos a favor do choro’’, ressalta Luciana.
Outra boa notícia vai animar os garimpeiros de partitura. Além de trabalhos em áudio, a Acari vai funcionar como editora. A idéia é publicar alguns Cadernos de Choro, que vão trazer também fotos e biografias de compositores e instrumentistas. Uma equipe coordenada por Maurício Carrilho – fará a revisão da melodia e cuidará da harmonia.
Os lançamentos da Acari serão divididos em três títulos. Um de conteúdo histórico, proveniente de pesquisas, como é o caso do disco sobre Joaquim Callado; outro voltado ao pessoal da velha guarda, que continua influenciando gerações, como Álvaro Carrilho; e outro para o choro contemporâneo, representado nesta leva por Luciana Rabello.
O primeiro título da gravadora é de Álvaro Carrilho, flautista da família de músicos que inclui ainda Maurício e Altamiro. O CD traz participações de Luciana Rabello no cavaquinho, dos bandolinistas Pedro Amorim e Joel Nascimento e Mauricio Carrilho no violão de sete cordas, entre outros.
Álvaro Carrilho é chorão da antiga, e durante muitos anos recebeu vários instrumentistas para reuniões espontâneas e célebres. Esse espírito se reflete no álbum, que registra várias composições próprias. O encarte é detalhado, revelando a formação de cada faixa e a história de cada tema. O grupo de base, com Mauricio, Luciana Rabello e Pedro Amorim, se conhece há anos, revelando cumplicidade tanto nos solos quanto no acompanhamento.
‘‘Leonardo Miranda toca Joaquim Callado’’, além da importância histórica, traz um cuidado milimétrico. Guiados pelo conhecimento e pelo instinto, Mauricio Carrilho (violão de sete cordas), Luciana Rabello (cavaquinho) e João Lyra (violão) reconstituem o acompanhamento de polcas e quadrilhas compostas há mais de um século. Já o solista Leonardo Miranda substituiu a cabeça da flauta, que engloba o bocal – geralmente banhado em prata – por uma de ébano, para reconstituir com maior fidelidade o som das flautas de madeira usadas por Callado (1848-1880) no século 19. O acompanhamento economizou nos contrapontos improvisados para realçar a melodia.
No texto do encarte, Mauricio Carrilho revela o conhecimento que Miranda acumulou em anos de pesquisa, e o próprio flautista não sabe, exatamente, qual das faixas do repertório já foi gravada anteriormente, mas tem certeza de que a maioria é inédita. O CD é um pré-requisito para quem quiser se aprofundar na história da música brasileira.
Os lançamentos fecham com ‘‘Luciana Rabello’’, primeiro disco-solo da cavaquinista que se interessou pelo choro ainda na infância, influenciada pelo avô. Na adolescência, Luciana despertou os interesses comerciais da televisão mas, ao invés de se tornar um sucesso meteórico, optou por colocar a seriedade musical em primeiro plano. Por isso, seu disco-solo só saiu agora.
‘‘Eu preferi fazer minha carreira como instrumentista, e toquei com todas as pessoas que admirava muito: Paulinho da Viola, Chico Buarque, Zé Kéti, Cartola, Elizeth Cardoso. O meu sucesso consiste nisso’’, assegura. O álbum traz composições próprias, parcerias com Cristóvão Bastos e o irmão Raphael Rabello, e várias homenagens que recebeu em sua trajetória. Considerada herdeira do cavaquinho de Canhoto, Luciana fez um disco melódico e cuidadosamente harmônico.
Se depender da qualidade, a Acari deve se firmar em breve. Até porque o material pesquisado vem se ampliando. Na Rio Arte, órgão da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, onde desenvolve alguns estudos, Mauricio Carrilho já fez o levantamento de 1.300 compositores de choro nascidos até 1900, com um total de 7 mil obras. A grande maioria permanece inédita.
• Os discos da Acari podem ser encomendados pela homepage www.acari.com.br ou pelo telefone (21) 621-0991, por R$ 20,00 cada exemplar, mais despesas de envio.Após 140 anos de estrada, o gênero finalmente ganha uma gravadora especializada, a Acari, que chega ao mercado com três títulos
DivulgaçãoMauricio Carrilho, João Carino e Luciana Rabello no estúdio da Acari: choro levado a sérioReproduçãoRepresentante da ‘‘velha guarda’’, Álvaro Carrilho mostra suas composições em CD-soloReproduçãoA obra de Joaquim Callado foi compilada em um disco históricoReproduçãoLuciana Rabello, que acompanhou Cartola e Zé Kéti, chega ao primeiro CD após 24 anos de carreira

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