Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Inezita Barroso comemora 45 anos de carreira lançando CD em que compila a diversidade musical ignorada pelo indústria do sucesso
Era morena, cabelos lisos. Contrariava o glamour das louras em voga. Ignez Magdalena Aranha de Lima começou a trabalhar no tempo em que ator fazia de tudo: cantava, recitava e interpretava. Em 1950 já se apresentava na Rádio Bandeirantes, em São Paulo. No mesmo ano, atuou em ‘‘Ângela’’, de Tom Payne e Abílio Pereira de Almeida. O primeiro LP veio em 1955, ‘‘Inezita Barroso’’. Há 45 anos a opção pela música popular brasileira já estava definida.
Inezita Barroso chegou ao ano 2000 em forma. O tempo não lhe arranhou a voz. A prova está em ‘‘Sou Mais Brasil’’, lançado pelo CPC-Umes em homenagem aos seus 45 anos de profissão.
A carreira de Inezita Barroso é de uma coerência surpreendente em um país onde os intérpretes costumam embalar nos modismos. É também longa e estável para quem não pega carona nos benefícios comerciais da indústria fonográfica. Inezita canta de tudo: samba, choro, seresta e moda – e não apenas música caipira, como ficou estigmatizada –, desde que tenha cara e sotaque de Brasil. O faro apurado sempre revelou veios de autenticidade em canções que retratam o povo.
É uma jornada longa que se tornou briga e provocou preconceitos. Paulistana, Inezita se voltou para o interior. Do piano aprendido na infância transferiu-se para a viola, que dedilhava escondida quando saía da capital para visitar fazendas da família. Viola era coisa de caipira (o termo tinha sentido pejorativo). E mulher tocando viola era escândalo.
Talento não tem preço e, na época, não havia tantas formas pré-concebidas no mundo do entretenimento, não havia uma mão de ferro para esmagar quem não se encaixasse em compartimentos rotulados – como um produto para o consumo imediato. O talento era valorizado. Inezita Barroso recebeu, ainda em 1955, o Prêmio Roquete Pinto e o Prêmio Saci de melhor atriz de cinema.
Antes do primeiro LP, já estava envolvida com folclore, participando de palestras e debates na USP. Ainda hoje pesquisa o tema e recebe farta correspondência sobre manifestações populares.
Nessa trajetória, divulgou nomes que suscitam respeito, como Hekel Tavares, Mário de Andrade, Waldemar Henrique, Raul Torres, João Pacífico, Cornélio Pires, Tião Carreiro, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira e muitos outros. Registrou e divulgou o folclore da Bahia, Minas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e do país inteiro.
Por isso, ‘‘Sou Mais Brasil’’ – título sob medida – é um panorama de todo esse trabalho. Não faltam as clássicas ‘‘Lampião de Gás’’ (Zica Bérgami), ‘‘Moda da Pinga’’ (creditada como domínio público) e ‘‘Cuitelinho’’ (recolhida por Paulo Vanzolini).
O repertório é embasado por instrumentistas convidados. Como se tornou moda convidar amigos cantores para duetos, Inezita preferiu os tocadores. E apareceram nomes da pesada: o violeiro Roberto Corrêa (talvez a maior autoridade brasileira no instrumento), Cézar do Acordeon (arranjador, compositor e instrumentista), Natan Marques (foi violonista de Elis Regina), Théo de Barros (violonista, cantor e compositor de ‘‘Disparada’’ e ‘‘Menino das Laranjas’’), Francisco Araújo (um dos maiores nomes do violão brasileiro no exterior e quase desconhecido por aqui), Toninho Carrasqueira (flautista que já tocou com Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal), Paulinho Nogueira (outro grande nome do violão brasileiro), Roberto Sion (saxofonista que já tocou com toda a MPB), e Toninho Ferragutti (outro instrumentista disputado no acordeom), além do veteraníssimo Caçulinha e da Orquestra Sinfônica do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, de Tatuí. O 77º disco de Inezita traz qualidade a toda prova.
‘‘Eu tinha que fazer algo com ‘Lampião de Gás’, ‘Moda da Pinga’ e outras músicas que eu gosto. Convidei vários músicos e acho que deu certo’’, comenta a cantora, em entrevista por telefone à Folha2. Inezita Barroso não esconde a satisfação com o disco e muito menos com os rumos que escolheu.
‘‘Durante esses 45 anos eu cantei todos os estilos, música popular, modinhas, folclore, canções... E o disco lembra isso. Gostei muito mesmo. Me viam como cantora só de moda de viola. Nos discos que gravei com o Roberto Corrêa tentei quebrar isso. Aí surgiu um monte de lançamentos de música caipira para fazer frente ao sertanejo, que é fabricado, não tem nada a ver. É tudo fabricado pela mídia’’, ressalta, com a veemência de quem lutou a vida inteira contra os desígnios que hoje tomam conta do mercado fonográfico.
‘‘Quem tem menos de 40 anos é difícil conhecer essas músicas, porque não toca em rádio. A gente não pode deixar isso morrer. Diminuir, já diminuiu. Não se vêem mais compositores como se via há pouco tempo, como o Chico Buarque, o Milton Nascimento e tanta gente boa que surgiu. Hoje parece que não temos essa riqueza de compositores’’, argumenta.
Apresentadora do ‘‘Viola Minha Viola’’ (TV Cultura) há 20 anos, Inezita reclama também da falta de seriedade da televisão: ‘‘O que falta na TV é um programa sério de música popular. Talvez isso ocorra porque não tem quem cante. A coisa ficou feia. As músicas que eu gravo não têm idade porque são bem feitas, têm letras bonitas, têm um enredo, e é isso que está faltando, está tudo muito repetitivo’’.
Inezita não poupa críticas à falta de criatividade geral: ‘‘Está tudo muito pobre. A música brasileira não é pobre. Cadê os poetas, os compositores? Eles se encolheram porque não têm onde divulgar seu trabalho. Vamos defender o que é nosso. Eu briguei minha carreira inteira e ainda estou brigando. Sinto falta de bons cantores, sem esse estilinho de dublar, que é bobo e mecânico’’. ‘‘Sou Mais Brasil’’ é, portanto, um elogio e um alerta à música brasileira.

‘Sou Mais Brasil’, faixa por faixa
• Viola Enluarada – Da dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle. A música já foi gravada inúmeras vezes, mas o dueto de Inezita Barroso com a viola de Roberto Corrêa é uma das melhores versões.
• A Saudade Mata a Gente – De João de Barro e Antônio Almeida. Toada com apuro instrumental do conjunto regional de Cézar do Acordeon e a participação de Natan Marques, com forte ambientação rural.
• Isso é Papel, João? – De Paulo Ruschel. Outra com o regional de Cézar do Acordeon. O interessante é que havia uma dúvida sobre a autoria, esclarecida pela própria Inezita, que viu a composição nascer em sua casa pelas mãos de Ruschel.
• Cuitelinho – Recolhido por Paulo Vanzolini. O destaque aqui é a voz grave e aveludada de Théo de Barros, que canta com Inezita e ainda toca violão.
• Nhapopê – Recolhido por Villa-Lobos. O arranjo traz dois feras: Francisco Araújo e Toninho Carrasqueira. Violão e flauta tocados por quem sabe.
• Coco do Mané – Luiz Vieira. Mais uma variação de Inezita, que mergulha aqui em ritmos do Norte/Nordeste, sintetizados pelo pernambucano Vieira com o regional de Cézar do Acordeon.
• Procissão de Sexta-Feira Santa – Paulinho Nogueira. Essa faixa também merece destaque. Nogueira ainda é um ótimo violonista, estabelecendo um diálogo com Cézar do Acordeon.
• Ave Maria – Erothides de Campos. Composta em 1924, a composição ganha com os arranjos de Robertinho do Acordeon, o violão de Natan Marques e o sax de Roberto Sion. Experiente, Inezita não cai na tentação das notas mais longas, evitando exageros.
• Segura Zé – Israel Filho e Tiago Duarte. Essa música foi descoberta em Apucarana e era inédita. Com arranjo e acompanhamento do regional de Cézar do Acordeon.
• Moda da Pinga – Domínio público. Marca registrada de Inezita, com viola tocada pela cantora.
• No Bom do Baile – Barbosa Lessa. Faixa em que Inezita faz homenagem ao Rio Grande do Sul. O xote tem arranjo de Cézar do Acordeon e a participação de Toninho Ferragutti.
• Pingo D’Água – João Pacífico e Raul Torres. Uma das duplas mais importantes da música caipira. O acordeom ficou por conta de Caçulinha, enquanto Natan Marques comanda o violão.
• Meu Casório – Domínio público. Os arranjos de Cézar do Acordeon ganham respaldo na viola de Tião do Carro.
• Lampião de Gás – Zica Bérgami. A faixa fecha o CD com ares de celebração. Os arranjos de Hervê Cordovil ganharam adaptação para a Orquestra Sinfônica do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, de Tatuí, reconhecido em todo o país.

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