Ter a conta bancária extraviada é regra entre os cultuadores de estilos. Nesta temporada, coube à banda britânica Massive Attack promover mais uma onda de inadimplência com o lançamento de uma caixa reunindo todos os CDs produzidos ao longo da década no formato single.
A caixa, batizada Singles 90-98, já está chegando às lojas brasileiras pela gravadora Virgin. É um resumo generoso da trajetória da banda de Bristol incluindo todos os seus sucessos e mais faixas-mix, remixes e canções inéditas.
O material sumariza também todas as experiências sonoras calcadas sob o rótulo trip hop, cunhado pela revista ‘‘Mixmag’’ para caracterizar texturas sombrias, batidas lentas, instrumental hipnótico, sujeira digital e letras desencantadas que começavam a proliferar em discos lançados no meio da década. Massive Attack foi o primeiro grupo pintado com a tarja. Mas suas composições traziam apelo radiofônico combinando gêneros e estilos familiares como hip hop, soul music, dub, psicodelia e jazz.
A caixa de singles didatiza a aventura sonora do grupo formado por Grant Marshall (Daddy G), Robert Del Naja (3 D) e Andrew Vowles (Mushroom) repassando seletivamente o repertório dos álbuns Blue Lines (1991), Protection (1995) e Mezzanine (1998).
Traz, por exemplo, o hit ‘‘Unfinished Sympathy’’ com a impagável interpretação vocal de Shara Nelson, teclados atmosféricos e cordas sintetizadas. A faixa, vale lembrar, foi eleita a melhor música de todos os tempos numa pesquisa realizada no começo do ano entre os ouvintes da rádio BBC de Londres.
A coleção contém também a bela ‘‘Protection’’, registrada em seis versões e com Tracey Thorn do grupo Everything But the Girl nos vocais. Um dos remixes da canção é do produtor Brian Eno. ‘‘Teardrop’’, a preciosidade do último álbum, desponta na voz etérea de Liz Fraser, dos Cocteau Twins. As ilustres participações femininas, diga-se, são trunfos que a banda sempre reservou como surpresas ao público.
No quarto CD, o único a mostrar três faixas distintas no lado B (nos demais, são os remixes que constituem os B-sides), o Massive Attack revela toda a influência exercida por Marvin Gaye em suas composições com o registro da melodiosa ‘‘Be Thankful for What You’ve Got’’.
As faixas-remixes, autênticas aulas de como compor canções a partir do ‘‘esqueleto’’ da matriz, desafiam o público com versões assinadas por nomes como Underworld, Blur, Primal Scream, Portishead, Maniac Street Preachers, U.N.K.L.E e Mad Professor.
Massive Attack esteve no Brasil no final do ano passado participando do Free Jazz Festival. Há quem especule que o show realizado em São Paulo tenha sido o último do grupo, cujos integrantes a partir de agora se limitariam a produzir ou colaborar com trabalhos alheios. A apresentação por aqui, considerada morna pelos críticos, foi frustrante para muitos que aguardavam ansiosos ‘‘o show da década’’. Para quem não viu, uma palha desse show poderá ser apreciada hoje, a partir de 19 horas, na TV Cultura.ReproduçãoMassive Attack: som da banda inspirou a imprensa britânica a criar o rótulo trip hopNelson Sato

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