Singeleza em palavras e aquarelas
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
Adriana Ito<br> Reportagem Local 
A chuva, o Lago Igapó, o ipê florido, a gaveta desarrumada - e toda poesia contida nessas pequenas coisas. Essa é a essência do livro ''Estação Poesia'', de Lygia A. Schrank Araújo, lançado recentemente em Londrina. Neste que é o quinto livro da autora, poemas e aquarelas se integram e dialogam entre si.
Embora muitas vezes pareça que foi o poema que gerou a pintura ou vice-versa, Lygia explica que cada obra foi feita separadamente. ''A temática dos meus trabalhos sempre se volta às coisas que me encantam, e estou sempre procurando expressar esse encanto de alguma maneira. Por exemplo, eu gosto de pintar o lago. De repente faço uma poesia sobre ele. Se aquele mundo me encanta, me encanta. Ora brota de um jeito, ora de outro'', explica.
Lygia se considera poeta, mas não consegue priorizar ou escolher uma linguagem para se exprimir. Quando surge, a inspiração geralmente já vem exigindo os pincéis ou a caneta. ''Muitas vezes, o que acontece é de a mesma coisa surgir duas vezes. Posso fazer primeiro um poema e depois uma aquarela sobre isso'', exemplifica, lembrando que Monet chegou a pintar doze telas sobre o mesmo tema. E, nessa ciranda de inspirações dentro de um processo criativo bastante diverso, de repente ela tinha um livro inteiro de poemas que, de certa forma, estavam relacionados a determinadas aquarelas.
Sua inspiração chega de repente, intensa e muitas vezes em situações improváveis, como em um restaurante ou durante a missa. ''Já escrevi em guardanapo de papel e até em talão de cheque'', diverte-se. Esses poemas são transcritos em um caderno, e nem sempre precisam de retoques. ''Às vezes o poema já vem pronto. Às vezes eu faço algumas alterações. Há também ocasiões em que fico em dúvida, deixo o poema dormindo e meses depois encontro a solução.''
A poetisa admite que não escolhe conscientemente os temas de seus trabalhos. ''A poesia surge do âmago, porque você tem um mundo inteiro lá dentro querendo se expressar'', define. Mas tem consciência de que poetizar - em prosa, verso ou em pinturas - é algo que depende de uma vida inteira de dedicação, lendo, escrevendo, estudando e observando. Embora escreva desde pequena, porém, ela só foi lançar seu primeiro livro, Pedaço Eleito de Chão, em 2002, em grande parte motivada por uma bronca que levou da mãe, que não se conformava em ver os poemas guardados. ''Sempre escrevi, mas não tinha tempo de ir atrás de uma publicação'', justifica Lygia, que é formada em Letras, deu aulas nos ensinos Médio e Superior até se aposentar e tem quatro filhos. A mãe morreu três meses após o lançamento da primeira obra. Depois, vieram Moinho do Tempo, Minha Terra em Prosa e Verso e Meu coração no Teu.
A pintura é uma descoberta de há apenas uma década, mas todos os livros têm ilustrações suas. Em busca de novas formas de expressão, Lygia foi buscar primeiro a pintura a óleo, mas se encantou mesmo foi com a delicadeza da aquarela. Esta, aliás, contribuiu também para que ela apurasse ainda mais a visão. ''Para aprender a aquarelar, você tem que aprender a olhar, ver a luz e as sombras. Às vezes você vê uma árvore verde, mas tem muitos verdes naquela árvore. Assim, você aprende a desenvolver o olhar tanto para a palavra quanto para a imagem'', analisa.
Seja na forma de versos ou de pinturas, suas poesias são dotadas de uma singeleza que remete aos haicais, apontando o olhar para as frestas, descobrindo pequenas belezas no cotidiano e eternizando um único momento. ''A minha poesia é simples. Acho que é por isso que os jovens gostam, porque eles entendem'', comenta, esclarecendo porém que suas palavras e imagens não têm um público-alvo específico. ''A poesia é maior do que quem a está fazendo'', enfatiza. O livro pode ser encontrado nas livrarias Porto, Arles, Moderna e Miriam Presentes.


