Sindicato também defende Ballet Guaíra
O Sindicato dos Artistas, apoiando o Ballet Teatro Guaíra, enviou ao jornal à seguinte carta, assinada pelo presidente do Sated/PR, Grazianni Branco da Costa:
É muito triste constatar, segundo a publicação do jornal Folha do Paraná do dia 11 de março de 1999, referente a declarações feitas pela senhora Lúcia Camargo na matéria Ballet Guaíra Está Sem Direção Artística, a qual vem comparar uma companhia oficial do estado a um grupo privado como o Grupo Corpo, que reflete uma linha de pensamento muito particular, cuja proposta é completamente diferente de uma companhia estatal que reflete o pluralismo cultural da sociedade.
Não é verdade quando relata que o Grupo Corpo se apresente mais em Belo Horizonte que em São Paulo ou Rio, o Grupo Corpo não só se apresenta em Belo Horizonte como tem uma agenda completa em outros estados brasileiros, apresentando-se também no exterior. O balé Teatro Guaíra é uma companhia eclética, cujo repertório varia desde o clássico até o moderno, ao longo de seus trinta anos de existência com balés como Lezes, Mosaico, Triphon, coreografia de Yurek Shabelewski.
Por isso, não entendemos quando a secretária afirma que, para o balé reconsquistar a sua credibilidade junto ao público, necessitaria da adoção definitiva de um caráter contemporâneo. Diz ela, temos que nos adaptar aos tempos modernos, mediante ao exposto concluimos que ela desconhece o repertório do Ballet Teatro Guaíra.
Seguindo esta linha de pensamento, atualmente as orquestras sinfônicas do Brasil e do mundo só poderiam tocar obras de estruturas dodecafônicas eliminando Mozart, Bethoveen e Vivaldi, assim como não seria necessário ler Proust ou Tolstói, já que isso não faz parte, seguindo esta linha de pensamento, das necessidades do homem contemporâneo.
Os tempos modernos, mais do que nunca, não permitem uma simplificação da visão cultural e exigem uma responsabilidade cultural e política perante a sociedade como um todo. Todos os dirigentes que passaram por essa companhia tiveram sempre o cuidado e o respeito de atender às várias tendências culturais desta Unidade Federativa, composta por muitas etnias, propiciando desta forma obras variadas para público variado.
É uma constante na visão dos diferentes departamentos políticos ver o novo como algo isolado, sem pensar que na história da arte e da cultura é necessário a preservação da tradição das obras clássicas, porque só assim preservaremos a memória cultural de um povo.
Nesse interim, deve-se entender que o Teatro Guaíra não é um processo isolado, mas que ele, através dos seus corpos artísticos, mantém repertórios que mostram a história cultural e a memória do Paraná. Acreditamos que a secretária da Cultura deva zelar pela preservação da tradição e da história do Ballet Teatro Guaíra, não devendo deter-se aos gostos pessoais e à vontade de minorias.
Se é o do seu desejo criar um grupo contemporâneo, ela que o faça, porém o Teatro Guaíra deveria continuar sendo um centro da cultura universal. Sabemos dos problemas econômicos mundiais e temos consciência que os tempos modernos exigem, mais que nunca, um repertório eclético que se identifique com uma sociedade eclética. Por isso mesmo, a compreensão das diferentes correntes imigratórias do Paraná deveriam obrigar a secretária a analisar esse item com cuidado.
É verdade que falta conquistar novamente a credibilidade frente ao público, conforme disse, mais isto só será possível dando ao Ballet Teatro Guaíra o tratamento que toda companhia com qualidade deveria ter, somando as condições de trabalho a uma política cultural abrangente.
O descaso parte do próprio governo do Estado do Paraná, que há mais de oito anos não permite à diretoria do teatro Guaíra investir nesta companhia, inviabilizando promoções, novas contratações de bailarinos, maitres e diretor de balé, de notório conhecimento e respeito público.
A cultura e educação é um processo que sobrepassa o tempo de vida das administrações públicas. Precisamos de uma visão de Estadista que não observe um horizonte limitante, mas que seja abrangente com as necessidades do Paraná e do Brasil como um todo.
Que fazer com uma escola de dança clássica ligada ao Teatro Guaíra que ensina uma profissão que, dentro da visão da secretária, não faz mais parte do movimento moderno? Por isso perguntamos: qual é a visão que a senhora secretária tem desta modernidade?
Seria interessante advertir os pais, eleitores, que têm filhos na escola de dança clássica do Teatro Guaíra e nas escolas particulares do Estado, onde seus filhos depois de anos de estudos não encontrarão mercado de trabalho, já que, na realidade, para essa corrente estilística só teríamos duas companhias no país (muito pouco para a dimensão territorial do Brasil).
Só existe uma possibilidade de mostrar ao público os diferentes momentos históricos e artísticos dentro da dança, o da representação no palco. Não é como na pintura, que podemos transitar pelas salas dos museus vendo as obras da cultura universal.
Dentro da visão da secretária, estes museus deveriam queimar as obras de Modgliani, Velasquez, Rubens, Leonardo da Vinci ou Magrite, pois já não fazem parte da modernidade que ela visa.
Não podemos aceitar este argumento vindo de um administrador cultural de nosso Estado. Voltamos a relembrar que a tradição do Ballet Teatro Guaíra esteve sempre salcada numa linha artística eclética e esperamos que a secretária saiba cumprir patrioticamente seu dever com a socidade e com os artistas do estado, que apoiaram a sua continuidade naquele cargo público, acreditando na sua sensibilidade e no seu respeito aos valores do Paraná, não podendo desta forma ignorar tudo aquilo que aqui expusemos.





