''Sinais'': representação musical da maturidade de Zé Ramalho
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terça-feira, 31 de julho de 2012
Pedro Antunes <br>Agência Estado 
São Paulo - ''O que não te mata, não te destrói, te fortalece'', e assim, citando o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, o paraibano Zé Ramalho leva sua vida. Guerreiro do sertão e alquimista das palavras, o músico nascido em Brejo do Cruz chega aos 62 anos calejado, conhecedor da vida. ''Sinais'', novo disco de inéditas, lançado pelo selo próprio, Avôhai Music, é a representação musical de sua maturidade.
Cheio de psicodelia, blues e os encantos da musicalidade nordestina, o álbum traz Zé Ramalho em forma, após uma incursão por obras alheias. Enquanto resolvia um imbróglio com a gravadora EMI, que o proibiu de gravar seus sucessos, se envolveu nos projetos ''Zé Ramalho Canta Bob Dylan'' (2008), ''Luiz Gonzaga'' (2009), ''Jackson do Pandeiro'' (2010) e ''Beatles'' (2011). ''Sinais'' sucede ''Parceria dos Viajantes'', lançado há cinco anos. ''Cada disco é uma sensação diferente'', explica ele à reportagem por e-mail - Zé evita entrevistas. ''A sensação de apresentar músicas inéditas é de grande expectativa, devido à grande responsabilidade que um artista como eu tem, depois de 35 anos de carreira, ao apresentar tudo o que aprendeu neste mais novo capítulo.''
Neste período parado, Zé Ramalho nunca parou de compor. Mas a maturidade trouxe também a dádiva da paciência. Ele curte cada verso, cada harmonia. ''Não tenho mais ansiedade em finalizar uma canção. Deixo-a aguardando a inspiração maior'', pontua. ''Tudo foi pensado com calma.'' No contexto, as 12 músicas têm uma variedade enorme de gêneros (rock, folk, forró). Na calma nasceu ''Sinais''. A percepção da ação do tempo, implacável, é escancarada logo na primeira estrofe de ''Indo Com o Tempo'', faixa de abertura: ''O tempo vai passando / E, com ele, eu vou / O tempo vai passando / E, com ele, eu vou / Não deixo para trás / Nada do que eu sou'', canta Zé Ramalho, enquanto o guitarrista de blues Jesse Robinson destila melancolia na chorosa guitarra. A música, diz o autor, ''abre o portal das considerações poético-musicais a respeito desse tema.''
Apesar dos cinco anos entre ''Parceria dos Viajantes'' e ''Sinais'', as canções foram compostas nos últimos dois. No processo de criação de Ramalho não há sobras, tudo é previamente planejado. Ele chamou Robertinho do Recife, parceiro há 15 anos, para os arranjos e juntos assinam a produção.
Como um guia, Zé Ramalho nos introduz ao tempo com magnitude. Seu vozeirão sombrio abre caminho para as palavras cantadas (ou ditas), proféticas, psicodélicas e caóticas. ''Indo Com o Tempo'', ''Sinais'', ''Lembranças do Primeiro'' e ''Olhar Alquimista'' fecham o primeiro terço do disco de forma grandiosa. A sequência ganha raios de luz, com teclados alegres, como em ''Justiça Cega''. É a união do sax tenor com a sanfona, o cangaço e a cidade, luz e escuridão, futuro, presente e passado. Tudo num só Zé Ramalho.


