Sina de violeiro
Sina de violeiro
Mauro FrassonCorrêa está compondo em cima de versos escritos por seu avôA suavidade quase contemplativa do violeiro Roberto Corrêa mostra uma parte do cenário de sua vida. Sob essa mansidão existe um passado que se tingiu de sangue e dor: o avô que também era violeiro, foi assassinado numa emboscada, em 1937, porque tinha feito uma música criticando os políticos da terra. Morreu aos 39 anos de idade. O pai de Roberto, nessa época, contava com nove anos e ocultaram-lhe o ocorrido. Passaram-se décadas de silêncio, na tentativa de sepultar a memória, até que a história veio à tona, mexeu com feridas antigas e clareou as inquietações do músico.
Descobri essa sina em mim, ele diz. Acabei me tornando violeiro porque não tinha outra possibilidade que não fosse ser violeiro. Uma força maior o atraiu ao instrumento, pois até então seu futuro estava traçado para ser físico. Estudava Física na UNB, em Brasília, não sabia do que ocorrera com o avô, e muito menos que o bisavô também era ligado à viola. Sua relação com a música era o violão, como divertimento. A vida mudou de rumo ao ouvir o som da viola. Corrêa sentiu no encantamento que havia um chamado, e resistiu a ele o mais que pôde.
Sina é um negócio complicado, ainda mais porque tem o sofrimento da história. Eu não pude ser o que queria, para seguir a tradição, a minha ancestralidade. Mas não sabia disso, tive que descobrir à força, seguindo algo mais, uma espécie de intuição, já que isso nunca foi claro para mim, conta o músico. À medida que o passado se descortinava, Roberto Corrêa foi entendendo o presente. Tenho uma boa sina e me orgulho disso, de poder reverenciar meus ancestrais. Alguns pontos obscuros permanecem: Tenho um vão dentro de mim que não foi preenchido na minha infância. Tiraram a tradição passada diretamente de pai para filho, de avô para neto.
Sair a campo nas pesquisas tem o dom do reencontro com um mundo intimamente seu. Os laços que se estabelecem são tão fortes que por algum tempo Roberto trabalhou para o Instituto Nacional de Folclore, justamente por essa facilidade em se aproximar das pessoas. Pesquisadores e musicólogos contratados pelo instituto nem sempre conseguiam ir além do trivial.
Como esse povo da cultura popular, da música, das cordas e da devoção é meu povo, eu chegava lá querendo que tudo deles fosse meu. Então eu não era de uma outra tribo que estava checando e comparando. Aquilo lá era meu também: folia do Divino, folia de Reis, cururu... Foi nessa escola antiga e popular que se forjou o artista. Conhecedor da ciência, tomou seus rumos de compositor, e quando trabalha uma nova música sente adentrar em compartimentos sagrados da alma.
Minhas composições são extremamente importantes para mim porque elas vêm de um lugar meu muito rico, muito profundo e muito maior do que entendo da vida, da música e de tudo. Num dia perdido nos anos 30, o jovem fazendeiro João Baptista Corrêa achou por bem colocar num caderno as letras de músicas que ele fazia. Comentava com a mulher sobre esse cuidado de passar os versos para o papel ele não sabia escrever música pois quem sabe no futuro tivesse um neto que se interessaria por suas modas de viola? Sessenta anos depois tem-se a parceria: Roberto Corrêa está musicando as 49 letras, que chegaram às suas mãos por uma prima. Mal sabia João Baptista que estava deixando para o neto um pouco de sua magia, para ele dar continuidade. A morte não cala os cantores. (Z.C.L.)





