Simplicidade e sofisticação
Ao contrário do que aparentemente se insinua, Quanta é um disco nada cerebral. De fato, lá estão elucubrações interessantes de Gilberto Gil a respeito da ciência, religião, tecnologia e questões existenciais só que, muitas delas, colocadas de maneira direta e, em alguns casos, recheadas de clichês. Mas, claro, há inteligência, criatividade e inquietação próprias de Gil. Só que, ao contrário de outros trabalhos, Gil brilha muito mais como sofisticado e importante construtor de melodias do que propriamente como um intelectual preocupado em burilar melhor suas palavras.
Nos exatos 79min87s de duração de Quanta, o letrista Gil está mais para informador do que formador de idéias e pensamentos. Nem por isso ele deixa de ser instigante e vigoroso. Se por um lado falta assepsia lírica, por exemplo em Estrela (Há de surgir/uma estrela no céu/cada vez que ocê sorrir/Há de apagar/uma estrela no céu/cada vez que ocê chorar), há sacadas poéticas gilbertianas como em Graça Divina (Graça divina na vina, no violão/ toda música/Graça divina no tato, na sensação/Toda física/A proteína da graça divina não/ Não está na doutrina mas na meditação).
Em alguns casos, os versos de Gil precisam obrigatoriamente se apoiar na música para provocar êxtase dos sentidos. E quando isso ocorre, ele consegue arrepiar e, sobretudo, fazer pensar. Tais manifestações acontecem principalmente nas músicas em que Gil joga loas às ciências exatas, como em Quanta, a música.(Sei que a arte é irmã da ciência/Ambas filhas de um Deus fugaz/Que faz num momento e no mesmo momento desfaz).
As questões existenciais, um de seus motes preferidos, aparecem mais singelas e afirmativas. Em Fogo Líquido, por exemplo, Gil se mostra o grande poeta que é (O coração/risca o fósforo do ardor/E a dor se inflama voraz/Consumição/Numa fogueira de amor/De galhos secos da paz).
Mas são nas críticas a pessoas que Gil se mostra um irônico artesão musical. Os dois escolhidos foram o paranormal Thomas Green Morton, na deliciosa Dança de Shiva (Fraude do Thomas/repare a fraude do Thomas, os deuses todos em coma, enquanto Exu não dá o nó) e o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, em Guerra Santa (Promete mansão no paraíso/Contanto que você pague primeiro/Que você primeiro pague o dinheiro/Dê sua doação e entre no céu/levado pelo bom ladrão).
Mas Quanta não pode ser apreciado pelas letras apenas. A uniformidade do som é algo impressionante. Mesmo composto por dois discos, o álbum não soa pedante e muito menos repetitivo ou arrastado. É que Gil e cia produziram uma agradável e singela sonoridade sem, no entanto, cair no singular, no pasteurizado ou, o que seria pior, no arroz com feijão.
No disco 2, Gil parece deixar bem claro que apesar das influências do rock ou reggae que teve durante sua carreira, a bossa nova é a fonte de sua música. Faixas como Fogo Líquido, O lugar do nosso amor (em que há a citação musical de Só tinha de ser com você, Sala do som (uma homenagem a Milton Nascimento) e a instrumental Um abraço no João (homenagem a João Gilberto) demonstram claramente de onde vem a batida do violão de Gil.
Há também os resgates de pérolas da MPB - Ciência e Arte (Cartola e Carlos Cachaça), Objeto Sim, Objeto não (dele mesmo, gravada em 69) e a deliciosa Vendedor de caranguejo (Gordurinha). Tudo isso e muito mais faz parte do universo de Quanta que pode não ser o melhor trabalho de Gilberto Gil mas é, no mínimo, inteligente e indispensável. É de bom gosto. O que não chega a ser nenhuma novidade em se tratando do velho mestre baiano que, críticas à parte, continua atiçando curiosidades cada vez que resolve lançar sons e palavras novas.(A.M.J.)





