Dono de um estilo performático em cima dos palcos, o paulistano Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho - ou simplesmente Arnaldo Antunes - é um homem de família fora deles Filho de professor e dona de casa, o cantor e compositor de 50 anos é o quarto elemento de uma escadinha de sete irmãos Ele próprio é pai de quatro: Rosa, 22 anos; Celeste, 19; Brás, 13 e Tomé, 8 Está acostumado com casa cheia Por isso, não foi trabalho algum convidar uns 150 amigos para assistir à gravação do DVD e CD ''Ao Vivo Lá em Casa'', no quintal de sua agradável morada, no Alto de Pinheiros, em São Paulo Foi lá que ele recebeu a reportagem, e falou do novo projeto e da vida longe dos palcos
O que levou você a gravar o novo projeto na sua casa?
Acho que o espaço geográfico Tenho essa ideia desde que me mudei para cá, há oito anos Juntei isso com o projeto de fazer algo com o Andrucha (Waddington, diretor) Desde que ele dirigiu o clipe ''Música para Ouvir'', a gente vinha se namorando
Como foi organizar essa festa?
Uma semana antes da gravação, virou um caos Me mudei, porque não dava nem para dormir Era uma equipe de 30, 40 pessoas circulando por aqui O quarto do Brás virou técnica de som; o de Celeste, estrutura de vídeo do Andrucha, e o de Rosa, camarim do Jorge Ben Jor e do Erasmo Carlos
Você acaba de completar 50 anos, e canta ''Envelhecer'' no disco ''Iê Iê Iê'' e agora nesse projeto Como encara essa questão?
Mais do que a sensação de envelhecer - que eu não tenho -, é o medo do que vai vir, de tudo o que a idade avançada pode trazer Quero me manter inquieto Não quero sentar no sofá, mas que as coisas me façam levantar dele
Nem medo da morte?
A perspectiva de haver morte me conforta mais do que me amedronta, pois é o limite de tudo Sempre que estou numa situação de angústia ou medo, o máximo que pode me acontecer é morrer
Como se sente fisicamente hoje?
Meu esporte é fazer show Talvez seja a parte do meu trabalho que eu mais goste Tenho feito muito show, mais ou menos como era no início da carreira dos Titãs
O que gosta de fazer quando não está trabalhando?
Ir ao cinema, jantar fora, ler, encontrar os amigos, brincar com os filhos É claro que meu trabalho está o tempo todo rondando Não é que tenho trabalho e lazer, como a maioria das pessoas Se estou lendo, me dá ideia de algo Ou ouço uma música e aquilo alimenta algo que queria fazer Criação não tem muito esse limite Se por um lado sou privilegiado, por outro, às vezes, atormenta, porque é aquela coisa: acordo no meio da madrugada com uma ideia, tenho de levantar para anotar e não consigo mais dormir Mas eu gosto
Como é você como pai?
Sempre fui muito presente Acho que a coisa de ser pai é gostar, de ter a curtição do convívio, da brincadeira, de levar ao parque, ao cinema, ou ficar em casa Levar para escola é mais difícil por causa da minha agenda E também me separei (da artista plástica Zaba Moreau) Então, eles vivem na casa da mãe e têm os dias que ficam aqui Mas vou às festas da escola, reunião de pais Tudo faz parte
Seus pais eram rígidos?
Não era uma coisa super rigorosa A geração deles tinha uma mentalidade diferente da maneira como eu crio meus filhos e de como eles vão criar os deles Mas tinha um grau de liberalidade para a época que era bacana
Essa grande família te influenciou musicalmente?
Sim, eu ouvia música erudita por causa do meu pai, que tocava piano Meu irmão mais velho gostava de Vinicius, João Gilberto Outro irmão gostava de rock Minha mãe gostava de Dorival Caymmi Por conta própria, me liguei em Chico Buarque, Caetano, Gil, Milton Nascimento e Beatles, Rolling Stones, Chuck Berry E na infância, Roberto Carlos e Erasmo Eu fazia álbum com fotos de cantores da Jovem Guarda Essas informações foram me formando
E como se deu sua relação com a poesia?
Na mesma época em que aprendi os primeiros acordes de violão, também tinha o desejo de fazer os primeiros poemas Isso veio muito do convívio na escola Estudei no colégio São Domingos e depois no Equipe, que incentivavam muito a criação artística
Você era tímido na adolescência?
Sim, mas acho que fui lidando bem com isso A criação é um grande instrumento de relacionamento Primeiro é uma via de expressão e segundo, uma exposição Você tem de lidar com aquilo na marra Acho que chega uma hora que você vai para o palco com mais convicção, com mais intensidade do que se não fosse tímido
Seu estilo inusitado foi um pouco alimentado por essa timidez, para criar uma persona no palco?
Olha, sempre foi muito espontâneo Não me acho representando um papel no palco Sou um Arnaldo diferente do que está aqui conversando com você A gente é várias personas No palco, é uma outra persona, sou eu ao extremo Claro que é um espontâneo que corresponde a uma situação muito especial É mais uma entrega do que um exercício de construção de alguma coisa
Como vê a situação do Brasil, tendo como parâmetro a era Lula?
Sou otimista, acho que estamos no caminho de ascensão O Brasil tem problemas profundos, de distribuição de renda, violência, corrupção E isso não se resolve instantaneamente É um processo lento Tem de se priorizar a educação É uma área que tem de se cuidar, porque qualquer expectativa de um futuro melhor passa pela educação Acho um absurdo as melhores universidades serem públicas e as melhores escolas serem particulares Toda vez que o Lula participou de uma eleição, votei nele Torço para que Dilma (Rousseff) faça um bom governo
Segue alguma religião?
Não, mas tenho uma religiosidade, de não achar que é só o mundo material Tive uma formação católica, fiz primeira comunhão, mas não sigo o catolicismo Tenho simpatia por candomblé, dessa coisa de terem muitos deuses Gosto mais desse plural Acho que não acredito em Deus, acredito em deuses

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