Sem trocadilho nenhum, ‘‘Acústico’’ não passa de um disco redondinho. Tudo soa bem - o repertório é inquestionável, os arranjos são maravilhosos e Gal está com a voz cada vez mais límpida e bonita. Daí, que o disco, à primeira vista, pode passar a impressão de pecar pela falta de maiores emoções. Mas não é verdade. É preciso captar sutilezas em ‘‘Acústico’’ para se constatar que Gal Costa pode não ter feito nenhum disco antológico mas também não fez nada banal.
Nos arranjos, por exemplo, Wagner Tiso teve a preocupação em não exagerar nas cordas, um expediente muito comum quando se une no mesmo palco orquestra e um nome da canção popular. O equilíbrio perfeito do naipe de cordas com a banda de Gal não deixa dúvidas de que se trata de um disco popular sem laivos mais vigorosos de erudição.
Porém, sutileza maior está na voz de Gal Costa. A tal maturidade vocal que ela tanto faz questão de frisar está no fato de em nenhum momento querer mostrar sua invejável extensão vocal. Por quase todo o disco Gal trabalha mais com os registros médios abrindo, inclusive, mão de vibratos outrora prolongados. E o que é melhor: Gal não está técnica. Gal emociona como há muito tempo não fazia.
Mas se ‘‘Acústico’’ tem por pretensão revisitar a carreira de uma das mais importantes cantoras do Brasil de todos os tempos, as comparações são inevitáveis. A gravação original de ‘‘London London’’, por exemplo, era melhor mesmo com o inglês macarrônico de Gal Costa. Na versão atual Gal parece mais atenta ao sotaque do que propriamente com o valor histórico da música.
O mesmo acontece com ‘‘Pérola Negra’’, em que ela canta com Luiz Melodia, transformada agora em música de coquetel dançante. Outra faixa que quase vai ladeira abaixo é ‘‘Paula e Bebeto’’ que Gal canta com Frejat. Explica-se: coube à cantora segurar as pontas já que é público e notório que Frejat não é propriamente o que se pode chamar de um bom cantor.
E, ainda na seção ‘‘porém’’, soa desnecessária a regravação de ‘‘Aquarela do Brasil’’. Gal não precisava apelar para o ufanismo. Haveria (e há) canções melhores e menos manjadas que o clássico de Ary Barroso. Mas nas demais faixas Gal acaba por comprovar que, antes de tudo, seu canto está emocionante. ‘‘Lanterna dos Afogados’’, que canta com Herbert Vianna, é melhor faixa do disco. É de se chorar. Pode chorar, vale a pena.
Outro bom momento fica por conta do resgate, desta vez menos brejeiro mas assim mesmo delicioso, de ‘‘Teco Teco’’. Não se pode deixar de admirar também a maravilha que Gal faz em ‘‘Camisa Amarela’’, ‘‘Barato Total’’ ou mesmo ‘‘Vapor Barato’’ (com Zeca Baleiro). Acústico, enfim, é um disco redondinho. E que mal há em fazer um disco redondinho mas, sobretudo, agradável? (A.M.J.)

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