Simples, mas comovente
Simples, mas comovente
Não é preciso estar em estado de graça ou em melancolia profunda para entender o universo literário e musical de Batatinha. É preciso apenas uma pequena dose de sensibilidade aliada a uma igual voltagem de perspicácia para entender que era mestre em cantar a tristeza. Batatinha era um expert, um mago em sublimar como ninguém tais angústias da alma. Eis, pois aí, sua grandiosidade, sua nobreza. Se Diplomacia se ativesse apenas a mostrar essa faceta do compositor já estaria de bom tamanho já que sua poesia e musicalidade transcendem a rótulos, motes manjados e clichês.
Mas não. Os produtores acharam melhor também mostrar que a arte de Batatinha não se resume apenas aos precários estados da alma. O deboche, a ironia, a picardia estão muito bem ilustradas em pelo menos duas faixas Bebê Diferente (uma marchinha simplória) e De Revólver Não. O lado alegre do sambista dos tons menores é algo admirável.
Porém, é nos sambas chamados tristes que Batatinha realmente comove. Seja cantando sozinho como na bela Conselheiro (com letra de Paulo César Pinheiro que captou como ninguém a poesia melancólica de Batatinha) ou Diplomacia e Só Eu Sei ou na voz de outros intérpretes como Gil buscando no violão as notas precisas de Imitação.
Até a novata Jussara Freire, adepta ao estilo cool, se derrama em emoção numa das mais belas participações do disco - Ironia (Batatinha- Ederaldo Gentil). Bolero teve duas gravações - uma do próprio Batatinha cantando no feminino e de Maria Bethânia. Mesmo cantando bonito, Bethânia - e isso é raro - não comove tanto como Batatinha.
O melhor de tudo é que Diplomacia em momento algum precisa se ancorar nas vozes de consagrados e consagradas para ter validade. Tanto que os grandes momentos do disco acontecem quando ele solta sozinho sua voz viril, de timbre forte, de uma emoção contagiante.
O mais incrível, entretanto, é que Diplomacia não tem cheiro de disco póstumo, daqueles que vêm a público com o simples intuito de despertar um certo interesse comercial para, no final das contas, ser taxado levianamente de cult e servir apenas de material de pesquisa. Nada disso.
O disco vem cercado de uma comoção sincera, de um brilho único e latejante, de uma modernidade impressionante. Um produto fácil, direto e, por isso mesmo, emocionante. Simples mas com elegância e nobreza singulares. Simples mas com uma aura luminosa que costuma circundar apenas a cabeça dos grandes. Diplomacia resgata um sambista, é certo. Mas resgata, acima de tudo, a singeleza e poesia esquecidas num canto qualquer da alma desse Brasil tão emporcalhado atualmente por tchans, tchuns e afins. (A.M.J.)





