Para quem vem de uma grande cidade, a sensação é a de ter encontrado um dos últimos redutos de pessoas cordiais. Talvez o derradeiro esconderijo dos seres humanos não-estressados. Os bretões mandam para escanteio qualquer estereótipo do francês antipático e pouco gentil. São prestativos, se interessam pelo lugar de onde você veio e pelo fato de um estrangeiro ter escolhido a região para viajar. Costumam cumprimentar com fortes apertos de mão ou mesmo com quatro beijos – dois em cada face.
Em especial nas cidades menores, sempre aproveitam as datas festivas para revisitar suas danças, músicas (executadas principalmente com gaita de foles), roupas, comidas e bebidas típicas. Acima do sentimento de ser francês, um bretão é antes de tudo um bretão.
Outro hábito que faz parte do cotidiano é o da sesta. Nem as urgências do mundo contemporâneo, dos negócios ou a ansiedade dos turistas foram capazes de transformá-lo. As lojas fecham entre 12h e 14h. Almoçar, portanto, é algo que se faz nesse intervalo, restando ainda um tempinho para uma soneca.
Até nos restaurantes, saiba que é difícil achar algum aberto depois das 13h30. Se você gosta de uma refeição tardia no fim de semana, vai ter de se contentar com um lanche, talvez café com sanduíche. E depois jantar. À noite, jovens e adultos vão a bares e crêperies, para tomar cerveja – há boas variedades locais, de sabor surpreendente –, vinho e sidra, a bebida regional.
Em especial na zona rural, vários costumes desenvolvidos nos últimos dois séculos se mantêm vivos. As casas de granito guardam a aparência de quando foram construídas, até 200 anos atrás. E não é tão difícil encontrar algumas que nem dispõem de banheiro, já que os moradores mais tradicionalistas dizem não se importar em recorrer ao matagal nos arredores.
Criar animais como porcos e gansos, ter mais de um bicho de estimação, cultivar hortas e flores também fazem parte do esquema de vida bretão. É quase impossível andar pela Bretanha sem avistar floreiras nas janelas, vasos por todos os lados, canteiros bem cuidados. Hortênsias, violetas e espécies típicas do campo são outro orgulho.
Na hora de pegar a estrada a partir de Paris, as melhores alternativas para se chegar à Bretanha são o carro ou o trem. O interessante é observar a transformação da paisagem, é passar por vilarejos que parecem fazer parte de alguma cidade cenográfica, tão formosos que são. De carro, até Rennes – a 350 quilômetros de Paris –, dá para ir em três horas de viagem. Com o trem, é mais rápido: duas horas, pelo famoso Train à Grande Vitesse (TGV), que em alguns trechos chega a desenvolver velocidade de 300 km/h.
Bons museus, atividade universitária intensa, vida cultural agitada e um charmoso núcleo de casas e ruas medievais fazem de Rennes um bom ponto de partida para um tour pela terra dos celtas. Com viagens não muito longas, rodando de 100 a 500 km por dia, conforme a disposição do viajante, é possível conhecer muita coisa.
Na Bretanha, a natureza não é apenas cenário. É uma força que influi no cotidiano das pessoas. Interfere no tempo, na alimentação, na ocupação dos espaços. Para se ir ou vir há que se respeitar as chuvas, a luz natural, e as marés. As variações lá estão entre as maiores da Europa, podendo superar os 15 metros.
O litoral, recortado, pedregoso e rico em espécies é outra marca registrada da Bretanha, lugar de navegadores, pescadores, aventureiros e, no passado, de corsários.

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