SIMPATIA COM OS DIAS CONTADOS
Mesmo interpretando um vilão daqueles que mata, bate e rouba, José de Abreu acha que não consegue despertar o ódio do público. Pelo menos nas ruas, esta é a impressão que o simpático ator de 54 anos tem depois de quase três meses no ar da novela Porto dos Milagres. Na história de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, o capataz Eriberto é responsável pelas maiores barbaridades na trama juntamente com Adma, papel de Cássia Kiss. O ator atribui a indiferença às maldades que faz na trama ao seu passado na televisão. Sempre fiz personagens bacanas. Então, acho que o público enxerga o Zé de Abreu lá atrás, imagina o ator.
Esta lua-de-mel com público, no entanto, está perto do fim. Quem garante é próprio ator. Ele antecipa que o personagem vai aprontar mais atrocidades até o final. Os autores já me avisaram que não vou poder nem sair de casa, completa o ator, sem disfarçar o bom humor com a situação.
Com 34 anos de carreira, o ator não esconde que teve uma certa dificuldade para compor o robusto Eriberto. Como José de Abreu é espalhafatoso por natureza, ele reconhece que não conseguia encontrar o tom que os autores e diretores pretendiam dar ao personagem. Principalmente porque o Eriberto é um jogador de pôquer, sem expressões faciais. Foi difícil buscar aquele jeito frio do personagem. Ele praticamente não se manifesta com o corpo, explica José de Abreu, que vive gesticulando no cotidiano. O ator acha graça da situação. É o primeiro a reconhecer que deu muito trabalho para o diretores. No início, foi preciso regravar várias vezes as cenas. Realmente, não conseguia me concentrar, completa o ator.
Você considera o Eriberto como o grande personagem de sua carreira?
Ao longo de minha trajetória na televisão, tive personagens maiores do que este, como o Major Dorneles na minissérie Anos Dourados, por exemplo. Era um dos protagonistas da trama, como também o Tonhão em Bebê a Bordo. Tive outros personagens importantes, como delegado Motinha em A Indomada e um surfista coroa em Corpo Dourado. Só que todos estes descambavam um pouco para a comédia. Já o Eriberto é o primeiro vilão que estou fazendo na televisão. Está sendo muito marcante, principalmente, porque precisei tomar alguns cuidados. No dia-a-dia, falo muito alto. Sou um dos atores que dá menos trabalho para equipe técnica de som da Globo. Só que, para interpretar o Eriberto, precisei falar mais baixo que o usual e com tom mais grave. Também fui acrescentando outras características que os autores me pediram, como a ausência de gesto e aquele olhar de lagarto. Ele praticamente não reage a nada. Nem quando está feliz, nem quando leva um esporro.
Interpretar o Eriberto, então, está sendo um grande exercício para você...
Com certeza. Às vezes me descuido um pouco e começo a falar alto. Por isso, preciso repetir algumas cenas e, consequentemente, tenho dado mais trabalho para a direção. Tenho de redobrar a minha concentração.
Mas, por pouco, seu destino na novela teria sido outro. De acordo com a sinopse, você deveria interpretar o Teobaldo, personagem do Flávio Galvão. Você gostou da troca?
Muito. Tenho a impressão de que o Teobaldo não iria acrescentar muito à minha carreira. Ele ainda não eclodiu na trama. Mas vai chegar uma hora, quando morrer a mulher dele, vivida pela Cláudia Alencar, que o Teobaldo também vai cair para humor escrachado. Ele vai ficar broxa e será motivo de chacota para toda a cidade. Então, ele vai ficar caricato. Já o Eriberto é um cara enigmático.
E como tem sido a reação do público?
Acho que as pessoas ainda estão vendo o Zé de Abreu lá atrás. Nas ruas, ainda não encontrei ninguém com raiva do Eriberto. Acho que pelo meu passado na televisão. Sempre fiz personagens com personalidades bacanas. Então, pelo menos por enquanto, o público tem sido compreensivo comigo.
Você acha isto positivo?
Tem os dois lados. O negativo é porque a gente passa a se questionar: Será que estou fazendo bem o papel?. No Brasil, o grande vilão é aquele que passa a ser odiado pelo público. Até agora não sofri nenhuma retaliação. As pessoas, no máximo, brincam comigo, dizendo: Poxa, vê se deixa os pescadores em paz!. E eu acabo entrando na brincadeira: Vou matar todo aquele povo!. Mas, depois que ele matou o Jackson, personagem do Roberto Bomtempo, acho que a reação do público vai ser outra. O Eriberto foi muito cruel com o pescador. Atirou pelas costas e, quando o cara estava agonizando, ainda foi terrorista. Disse que iria levar o filho dele para o contrabando e que ia transar com a mulher do cara. Soube pelos autores que ele vai praticar outras maldades. O Ricardo Linhares já me preveniu que vou apanhar nas ruas. Mas ele não quis me contar qual era a próxima maldade do Eriberto.
Você é o tipo do ator que mantém contato com os autores?
Só em festas. Não fico enchendo o saco dos caras. Deixo eles trabalharem em paz. Mas confesso que, às vezes, bate uma certa insegurança. O ator tem uma coisa louca quando sai o roteiro de gravações no final de semana. Ele sofre de qualquer jeito. Se está gravando muito, a gente pensa: Autor desgraçado. Vou trabalhar para cacete nesta semana. Se grava pouco, novamente pinta a insatisfação: Autor sem mãe. Por que não escreveu para mim? Por que ele está esvaziando meu personagem?. Os autores e diretores também sofrem. É pressão para todos os lados.
Foi isso que fez você abandonar a carreira de diretor?
A verdade é que comecei minha trajetória como diretor pelo fim. As duas produções que dirigi até hoje foram a novela O Outro, protagonizada pelo Francisco Cuoco, e a minissérie Primo Basílio, também dirigida por Daniel Filho. Depois que dirigi a segunda, pensei: Vou parar por aqui. Já cumpri minha missão com diretor. Também não era meu barato dirigir. Nunca tive um grande prazer. Quando fiz um curso para diretor com Herval Rossano, foi para compreender um pouco mais a minha profissão. Queria acrescentar ao meu trabalho como ator.
E como surgiu a proposta para virar diretor?
Na época, estava atuando em O Outro como ator. A novela já havia tido mais de oito diretores. O Ricardo Waddington, que havia acabado de assumir a direção geral da novela, teve um quebra-pau danado com o Francisco Cuoco. O Chico, então, pediu ao Boni, que, na época, era vice-presidente de operações da Globo, para tirar o Ricardo da direção. Chegou uma hora em que o Boni disse que não aceitaria mais a troca de diretores. Ele achava que os atores não iriam aguentar uma nova substituição. Como eu era muito amigo de todo elenco da novela, acabei sendo convidado para assumir a direção juntamente com Del Rangel, que estava fazendo os filmes do Renato Aragão. Assumi meio por acaso e o clima da novela ficou ótimo.
E como é o ambiente de trabalho em Porto dos Milagres?
Excelente. Só tem feras. Estrelas no bom sentido. O Marcos Paulo e o Roberto Naar reuniram um elenco que não tem modelos ou manequins. São realmente pessoas do ofício.
Você é contra a entrada de modelos e manequins numa produção dramatúrgica?
Acho legal quando as novelas lançam caras novas. Mas desde que sejam realmente atores e que tenham se preparado para a profissão, que na hora H saibam representar. Senão, quem acaba se ferrando são os autores, que vão ter de reescrever várias cenas para o cara. Isto acaba comprometendo o bom andamento da novela.
Porto dos Milagres está sucedendo a novela Laços de Família, que alcançou expressivos índices de audiência no Ibope. Vocês sentiram algum tipo de responsabilidade por causa do sucesso da antecessora?
O que vem acontecendo nos últimos anos é que todas as novelas das oito estão batendo recordes de audiência. A Indomada, do próprio Aguinaldo Silva, por exemplo, foi a recordista de audiência dos últimos anos quando foi exibida. Recentemente, foi a vez de Laços de Família. Mas acho que, daqui a pouco, a nossa novela vai superá-las. Se não superar, vai ser por pouco. A Globo sabe disso. É difícil uma novela fracassar no horário nobre.





