Poeticamente, Vinicius de Moraes definiu o samba como a tristeza que balança. A definição do Poetinha encontra o eco perfeito nas canções compostas por Nelson Cavaquinho (1911-1986). Autor de canções densas que falam de forma cadenciada sobre a morte, os desamores e a solidão, o compositor carioca deixou clássicos eternizados na história da música popular brasileira. Entre eles, “Juízo Final”, “Folhas Secas”, “Luz Negra” e “A Flor e o Espinho”.

Essas e outras canções compostas pelo mais melancólico dos sambistas mangueirenses estão reunidas no recente tributo a ele lançado pela gravadora Biscoito Fino. Principal representante do renascimento da Lapa - o mais boêmio dos bairros cariocas, o Grupo Semente convidou a cantora Simone Mazzer para juntos criarem novas leituras de músicas que atravessaram gerações e até hoje fazem parte do repertório de rodas de samba realizadas pelos quatro cantos do país.

“Grupo Semente e Simone Mazzer Cantam e Tocam Nelson Cavaquinho”,  álbum lançado no formato de CD e também nas plataformas digitais
“Grupo Semente e Simone Mazzer Cantam e Tocam Nelson Cavaquinho”, álbum lançado no formato de CD e também nas plataformas digitais | Foto: Thiago Sacramento/ Divulgação

Com 22 anos de trajetória, período em que tocou com Paulinho da Viola, Marisa Monte e Dona Ivone Lara, entre outros artistas, o Grupo Semente resolveu chamar Simone Mazzer para cantar Nelson Cavaquinho devido ao peso dramático que a londrinense carrega na voz e que seria necessário para interpretar 14 canções do compositor carioca reunidas no disco.

Batizado de “Grupo Semente e Simone Mazzer Cantam e Tocam Nelson Cavaquinho”, o álbum lançado no formato de CD e também nas plataformas digitais faz conexões entre o tradicional e o moderno. A faixa “Juízo Final”, por exemplo, ganhou floreios de guitarra que se intercalam com os vocais de Simone e Bruno Barreto. O cantor que integra o Grupo Semente divide com a londrinense algumas faixas do disco e faz solo em outras, como é o caso do clássico “O Palhaço”. Além dos vocais, Bruno também toca percussão no grupo formado pelos músicos João Callado (cavaquinho), Bernardo Dantas (violão sete cordas), Marcos Esguleba (percussão) e Maninho (percussão).

Intérprete com forte influência do rock em seu trabalho, Simone Mazzer concedeu uma entrevista à FOLHA na qual fala a sua inusitada conexão com o universo do samba e novos projetos profissionais.

Qual a sua ligação musical com o samba?

O samba é, de certa forma, muito recente na minha história. Apesar de já gostar de uma coisa ou outra nos meus tempos de Londrina, fui conhecer melhor mesmo depois que me mudei para o Rio, e com a influência da família do meu companheiro, que é toda do samba. Aí foi só absorver esse imenso material que o Brasil tem à nossa disposição.

Já tinha intimidade com a obra de Nelson Cavaquinho?

Conhecia alguns clássicos e suas gravações antológicas, mas até então não tinha no meu repertório.

O que esse mergulho nas composições dele despertou em você em relação às peculiaridades da obra de Nelson?

Um território que até então, eu não havia visitado com tamanha missão. Pesquisar a obra, cantar suas músicas, trouxe ao meu repertório um desafio diferente. Interpretar sambas consagrados pra um público bem exigente. Foi muito bom, enriquecedor. Ainda mais esse repertório que é riquíssimo. Nelson falava de temas densos com muita leveza e alegria. Um prato cheio pra uma intérprete!!

Suas interpretações são viscerais. Apesar disso, o repertório denso de Nelson foi abordado com leveza. Encontraram desafios para chegar a esse resultado?

Tudo aconteceu naturalmente, a gente ensaiou muito, fizemos alguns shows antes de decidirmos gravar. Isso nos deu bastante confiança e autonomia na execução dos arranjos.

Pretende dedicar outros álbuns ao universo do samba?

Por enquanto, não. Mas a gente nunca sabe o que nos aguarda ali na frente.

Você anunciou recentemente nas redes sociais que já está programando a gravação de um novo álbum. O que pode adiantar sobre esse novo projeto?

Desde o lançamento do single "Corpo" (2018), venho pensando, pesquisando e estudando muito esse tema: corpo. É disso que vou falar. Esses 30 anos de carreira me dão propriedade pra falar sobre um mundo que torna certos corpos invisíveis e excluídos diante de padrões pré-estabelecidos sabe-se lá por quem. Quero falar sobre isso nesse novo álbum. Também posso adiantar que vai ser um álbum de repertório inédito. Algumas canções feitas para mim, outra ainda nunca gravadas. Vai ser lindo.

Imagem ilustrativa da imagem Simone Mazzer faz sua estreia no samba
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