Simenon ou a simplicidade do gênio
Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha 2
Nascido em Liége, na França, numa sexta-feira, 13 de fevereiro de 1903 (mas registrado com a data do dia anterior, por obra da superstição materna), Georges Joseph Christian Simenon, o criador do inspetor Maigret, teve infância e adolescência marcadas pela pobreza, o que o obrigou a abandonar os estudos. Para sobreviver, empregou-se, aos 16 anos, como repórter de polícia e da geral na Gazette local, onde aprendeu a escrever de modo sóbrio, objetivo e discreto - três adjetivos que nos ocorrem quando lemos qualquer de seus livros. Em 1922, muda-se para Paris, onde trabalha como escriturário e, três meses depois de sua chegada, casa-se com a pintora Regine Renchon. No ano seguinte, publica o primeiro de seus 400 romances. Aos 26 anos de idade, já é um autor de sucesso. Sucesso que, a partir de então, só cresceria: além de ter sido um dos autores mais prolíficos de todos os tempos, sendo capaz de produzir até 54 páginas por dia, foi certamente o mais lido (só perdendo mesmo para a Bíblia). Vendeu, ao longo da vida, mais de 500 milhões de exemplares de sua obra e foi traduzido para 55 idiomas (entre eles, o cingalês, o esperanto e o dialeto romanche). Proprietário de todos os direitos autorais de seus livros, teve de sobejo tudo aquilo que a maioria dos homens costuma desejar: fama, fortuna e um fantástico apetite sexual (jurava ter levado para a cama pelo menos 10 mil mulheres). Colecionou mansões, carros luxuosos e cachimbos ingleses. No entanto, considerava-se um homem simples - e sua obra seguramente o foi.
Simenon não se destaca nem pelo brilho estilístico, nem pela criatividade de suas histórias. Crimes banais, personagens opacos, cenários prosaicos. E mesmo o seu herói (se é que assim pode ser chamado), Maigret, além de não ser excepcionalmente inteligente, é destituído de charme ou de qualquer traço de originalidade - um homem comum, metódico, algo antiquado, também ele opaco. Por que, então, Simenon fez - e ainda faz - tanto sucesso? O jornalista Gilles Lapouge, em artigo publicado poucos dias após a morte do escritor, arriscou uma explicação que, se não é a melhor, é bastante razoável: Um excelente cozinheiro, comparou ele, não necessita de especiarias das Índias, legumes do Pólo Norte ou aves raríssimas para fazer uma iguaria única. Ele serve um filé ou uma omelete, com a receita que todo mundo conhece, mas manipula de tal forma os ingredientes banais que nos faz ter certeza de que jamais degustaremos novamente uma tal delícia. Mas por que a omelete ou o filé com fritas servidos pelo escritor comparecem, há mais de 70 anos, com tanta assiduidade no cardápio literário de tantas pessoas de culturas e gostos tão diferentes - sejam elas intelectuais sofisticados ou cidadãos anônimos e prosaicos - é coisa que nem Lapouge nem os milhões de fãs de Maigret saberiam explicar. O fato é que esses pratos, que parecem ter sido preparados numa cozinha do século 19, são consumidos vorazmente - e este é o grande mistério de Simenon.
Epílogo
Pode-se dizer que Georges Simenon morreu duas vezes. A primeira em maio de 1978, quando sua filha favorita, Marie-Jo (nascida, como os outros filhos do escritor, Jean e Pierre, durante o seu segundo e infeliz casamento, com a canadense Denise Ouimet), suicidou-se, aos 25 anos. Desfez-se, então, de suas mansões, de seus carros, de seus muitos empregados, e retirou-se para uma casa simples, burguesa, em Lausanne, na Suíça, onde passou os últimos dez anos de sua vida, tendo como única companhia a espanhola Teresa, ex-criada de sua segunda mulher. A outra morte, oficial, aconteceu no dia 4 de agosto de 1989, devido a doença crônica não especificada, porém a notícia só foi divulgada pela família no dia 6, após a incineração do corpo. Simenon tinha 86 anos e suas cinzas foram depositadas numa torre - único vestígio de ostentação na casa simples de Lausanne -, ao lado das cinzas da filha.
Quanto a Maigret, embora o seu criador o tenha aposentando em 1972, continua bem vivo e, após ter protagonizado mais de 50 filmes e ganhar estátua em praça pública na Holanda, entre outras homenagens, pode ser visto, todos os domingos, na série da televisão francesa que o canal pago Multishow exibe às três da tarde.





