Jorge Luis Borges afirmou certa vez que, para o escritor, o mais perigoso dos ofícios é ser jornalista. Segundo ele, o jornalismo se parece com a literatura o suficiente para contaminá-la. A provocação é lembrada num dos ensaios reunidos no livro ''Jornalismo e Literatura A Sedução da Palavra'', que a editora Escrituras está lançando pela Coleção Transversais.
A coletânea traz 18 textos, todos abordando as relações entre os dois gêneros de escrita. Entre os autores elencados figuram o escritor gaúcho Moacyr Scliar, o pesquisador José Marques de Melo e os jornalistas Marcelo Coelho e Daniel Piza. No prefácio, os organizadores do volume Gustavo de Castro e Alex Galeno assinalam que a ''fronteira entre jornalismo e literatura está cada vez mais difusa, cada uma recorrendo aos recursos e cosmovisões da outra como forma de desvendar o mundo e propô-lo com um sentido e uma tarefa ao leitor''.
Defendendo a simbiose entre ambas, eles criticam a pouca atenção dada à literatura pelos professores e estudantes das faculdades de jornalismo. O resultado do descaso é que ainda segundo os dois ''a reportagem, a crônica, o perfil, o relato ou a simples matéria, aparecem repletas de carências estéticas, através de uma prosa sem brilho, fria, opaca e pouco emotiva''.
A opinião é recorrente ao longo dos ensaios. Daniel Piza, colunista do Estado de S. Paulo, reforça a idéia sublinhando que hoje ''qualquer 'lide' de jornal americano e europeu de gabarito tem mais criatividade e sutileza, inclusive quando tratam de notícias policais e dados econômicos, do que seus exemplares brasileiros''. Mais adiante, escreve que ''algum teor autoral é importante, porque numa era em que há tantas fontes de informação a quente (TV, Internet, etc), em que o grande 'furo' não vive mais que 15 minutos, a diferenciação da escrita é o que poderá manter a atenção do leitor''.
Rogério Menezes, cronista do Correio Braziliense, vai na mesma direção. Segundo ele, o noticiário meramente factual (que a televisão já mostrou exaustivamente no dia anterior com maior riqueza de detalhes) ''pode ser mais capaz de matar o jornalismo impresso do que mil e uma internets de altíssima velocidade de acesso''.
Também descontente com o jornalismo atual, Carlos Magno Araújo usa como contraponto as reportagens publicadas nos anos 60, em revistas como ''O Cruzeiro'' e ''Realidade''. ''Nunca, na história da imprensa brasileira, os jornalistas foram tão escritores como naquele período'' lembra. ''Sem prejuízo da informação, o texto encadeava uma história que seduzia o leitor. Talvez não seja por outro motivo que hoje grandes jornalistas daquele período se transformaram em escritores. Para citar dois, fico em Fernando Morais e Ruy Castro''.
Se a maioria dos textos da coletânea trata da influência da literatura sobre o jornalismo, o contrário é discutido apenas de passagem. Foi Barbosa Lima Sobrinho, no clássico ''O Jornalismo como Gênero Literário'' (1958), quem primeiro abordou a questão enfatizando que dificilmente se encontraria um escritor que não tivesse recebido influências da imprensa.
Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha, João do Rio, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Mário Quintana, Luís Fernando Veríssimo e Carlos Heitor Cony são nomes citados aqui e ali nesta coletânea como exemplos dessa tradição. Já no texto de abertura do volume, o escritor Moacyr Scliar confessa que aprendeu muito frequentando as redações.
''Não sou mais o escritor que eu era quando me tornei colaborador de jornais'' anota. Entre os recursos conquistados a partir do contato enumera a objetividade, a síntese e o exercício sistemático da escrita. Borges estava errado.

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