Sim senhor, não senhor
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
À exceção de casos excepcionais, quando esteve entregue a diretores de primeira como em ''O Show de Truman'' (Peter Weir), ''Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças'' (Michel Gondry) e ''O Mundo de Andy'' (Milos Forman), Jim Carrey se dedica a compor personagens histriônicos em comédias alopradas. Nenhuma novidade. Nem mesmo o fato de o espectador participar desta experiência na sala escura como um risco. Desta vez, entre sim e não, as trapalhadas de Carrey merecem um acanhado talvez.
Em ''Sim Senhor'', lançamento nacional a partir de hoje, ele é Carl Allen, personagem de meia idade e em plena crise. Trabalha num banco, onde se encarrega de conceder empréstimos - embora o mais comum é que os negue. Também é uma negação em suas relações pessoais: desde que sua mulher o deixou por outro, ele anda bem desanimado com a vida. Se alguém o convida a uma festa diz sempre não, e se entoca em casa, vendo vídeos.
Mas um dia alguém lhe diz que Terrence Bundley (Terence Stamp, sempre bom e sempre sub-aproveitado), carismático guru da auto-ajuda, dá ótimas conferências sobre algo chamado o Principio do Sim. Simplista, descomplicado e espertalhão como qualquer guru deste atual modismo comportamental, Terrence convence Carl a dizer sim a todo momento, porque respostas positivas vão levá-lo a alguma coisa boa, e as negativas a terríveis desgraças. O pacto quase faustiano é concretizado, e a nova atitude complacente muda a vida do personagem: viagens, muito dinheiro, múltiplas atividades, amor...
Payton Reed, especialista em levezas gerais (As Apimentadas, Abaixo o Amor e Separados pelo Casamento), adaptou aqui novela autobiográfica do cômico britânico Danny Wallace. O ponto de partida do argumento até que exibe alguma graça, apesar de certa tendência a situações grosseiras que acabam por embaralhar o que poderia ter sido uma comédia sólida e de moldes clássicos. Particularmente neste sentido, a sequência de sexo com a mulher na terceira idade remete aos piores momentos dos irmãos Bob e Peter Farrelly.
''Sim Senhor'' lida obviamente com a idéia de que os extremos nunca são bons. O roteiro cria algumas situações cômicas curiosas (outras até bem desagradáveis). Não faltam o slapstick, ou o nosso popular pastelão, e aquele interminável repertório de gestos - para quem gosta e suporta os histrionismos de Carrey.
Embora com alguns (raros) acertos, a comédia poderia ser mais encorpada e crítica, se afinasse a paródia e a farsa sobre a auto-ajuda e o místico bom-mocismo por ela gerado. Mas ao contrário, e como ocorre muito frequentemente nestes casos, a narrativa adoça progressivamente a trama e aposta todas as fichas na ligação romântica e seu previsível enlace entre os personagens de Carrey e Zooey Deschanel, esta, aliás, um dos poucos motivos que podem afinal convencer o espectador a trocar o talvez pelo sim.


